Sindicato Nacional da Indústria de
Trefilação e Laminação de Metais Ferrosos

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Sbado, 18 de Novembro de 2017






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Nissan planeja aproveitar dólar alto e iniciar exportações a partir do Brasil

Com o dólar valorizado e com folga de capacidade devido à crise no mercado doméstico, a Nissan começou a trabalhar num plano de exportar os carros produzidos na fábrica inaugurada há um ano e meio no sul do Rio de Janeiro, cujo objetivo inicial era atender apenas ao mercado doméstico.

François Dossa, presidente da montadora no Brasil, informa que a empresa está, nesse momento, estudando oportunidades em outros mercados, principalmente da América Latina. Embora o foco do investimento de R$ 2,6 bilhões na produção local de automóveis tenha sido o mercado brasileiro, ele diz que a valorização do dólar abriu o caminho para as exportações, avaliadas agora pela companhia “com muita atenção”.

A Nissan, pondera o executivo, ainda não tem uma definição a anunciar sobre o assunto. Suas declarações, porém, mostram uma evolução no discurso oficial da montadora que, até então, tratava as exportações a partir do Brasil apenas como uma possibilidade para o futuro.

Ao reduzir o custo em dólares da produção brasileira, o real mais barato deu condições para a Nissan colocar os modelos montados no país – o hatch compacto March e o sedã Versa – em mercados vizinhos hoje abastecidos pela fábrica da marca no México. Antes da unidade no Rio de Janeiro, a operação mexicana também supria cerca de 70% dos veículos vendidos pela Nissan no Brasil.

Dossa, que está em Yokohama participando de reuniões periódicas na sede da matriz da multinacional japonesa, respondeu por e-mail a questões encaminhadas pelo Valor sobre o efeito da disparada do dólar sobre os negócios no Brasil. A respeito do tema, informou que a empresa alcançou um percentual superior a 70% no índice de peças nacionais dos carros produzidos no parque industrial de Resende, no sul do Rio de Janeiro. Com isso, a montadora dá sequência a um programa de nacionalização que, mais do que atender às exigências de conteúdo local do regime automotivo brasileiro, visa reduzir a exposição ao câmbio nas importações de insumos. Quando a fábrica foi inaugurada, em abril do ano passado, esse índice estava em 60%.

“A desvalorização acentuada do real é um fator que só nos faz ter certeza que este caminho que estamos seguindo é o correto e, em função do cenário atual, estamos acelerando nosso projeto de integração local”, escreveu Dossa.

O trabalho de desenvolvimento de fornecedores domésticos e nacionalização de peças não para porque a meta ainda é subir o índice de conteúdo local dos carros para 80% até o ano que vem. “Não é um trabalho apenas nosso, estamos envolvendo nossos fornecedores diretos para eles também localizarem mais peças usadas em seus componentes. A cadeia toda precisa se envolver para realmente conseguirmos aumentar os índices e conter o impacto do dólar”, afirma o executivo.

Hoje, seis multinacionais japonesas de componentes como assentos automotivos, suspensão e borrachas de vedação estão instaladas dentro do parque de fornecedores ou na linha de produção da Nissan em Resende. Mas a ideia, conforme anunciado há um ano, é atrair pelo menos outros seis fornecedores ao entorno da fábrica para também reduzir os custos relacionados à logística.

Para aliviar o impacto do câmbio nos custos de produção – já que cerca de 30% das peças continuam sendo importadas -, o presidente da Nissan diz que a empresa está enxugando custos em todas as áreas. “Economia é fundamental, tanto em dólares quanto em reais. Gastando menos, conseguimos minimizar os aumentos de despesas provocados pela valorização do dólar.”

Neste ano, as vendas da Nissan no Brasil recuam 5%, mas como os concorrentes estão caindo mais, a marca melhorou de 2% para 2,4% sua participação de mercado. Está, portanto, no meio do caminho dos hoje distantes 5% almejados até o ano que vem e, ainda mais longe, da meta de se tornar a maior montadora japonesa do país, uma vez que a Toyota e a Honda já respondem, respectivamente, por 7% e 5,9% de todos os carros de passeio e utilitários leves vendidos no Brasil.

A expectativa é que a montadora termine o ano fiscal, que se encerra em março, com aproximadamente 50 mil automóveis produzidos no parque industrial fluminense, ou apenas um quarto da capacidade de produção no local, de 200 mil veículos.

Valor Econômico – 25/09/2015

 

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Economistas premiados engrossam coro de ataque ao livre mercado

O mês foi bom para os céticos do livre mercado. No Reino Unido, um socialista confesso é o novo líder do Partido Trabalhista. O papa Francisco, que condena o mercado por promover o “consumismo extremo”, foi recebido, ao chegar nos EUA como um astro do rock. E agora, justo aqueles que supostamente deveriam sair em defesa do mercado, os economistas, estão aderindo ao ataque.

“Mercados competitivos, por sua própria natureza, produzem engano e trapaça”, escrevem dois ganhadores do Prêmio Nobel, George Akerlof e Robert Shiller, em seu novo livro, “Phishing for Phools”, que deve ser lançado no Brasil pela Alta Books.

Com base em lições da economia comportamental, os autores sustentam que o mercado incentiva empresas a explorar fraquezas comportamentais, como o desejo do consumidor de gratificação imediata em detrimento do bem-estar de longo prazo. Empresas que se negam a descer a esse nível seriam sobrepujadas pelas menos escrupulosas. E isso “não é um infortúnio ocasional. Ocorre em tudo quanto é lugar”, escrevem.

Com a crise financeira global ainda fresca na memória das pessoas, e numa semana em que a Volkswagen foi acusada de fraude deslavada de testes de emissão de poluentes, críticas duras como essas estão fadadas a repercutir.

Mas há uma boa distância entre reconhecer que o mercado às vezes falha e sustentar que ele é inerentemente falho. Autoridades monetárias que partam da segunda hipótese correm o risco de fracassar por enxergar falhas no mercado onde não elas não existem e ignorar seus próprios vieses de comportamento, em ambos os casos deixando as pessoas em situação pior. A confiança da sociedade no livre mercado não mudou muito nos EUA nem no Reino Unido em relação a níveis pré-crise, e até na Argentina do papa a opinião não é muito pior do que era em 2009.

A economia sempre reconheceu que, às vezes, o mercado falha. Fábricas, por exemplo, têm incentivo para poluir, pois é a sociedade, e não os donos da fábrica, que arca com o custo para despoluir o ar e a água. O mercado pode ainda premiar desproporcionalmente quem tem sorte e talento, agravando a desigualdade.

A economia comportamental vai além, sustentando que as pessoas tomam, sistematicamente, decisões tidas como irracionais por economistas. Elas poupam muito pouco para a aposentadoria, comem muita comida gordurosa e não se exercitam o suficiente, porque atribuem pouco valor ao futuro. Elas pagam preços inflacionados ou aceitam produtos inferiores devido a vieses pessoais, a informação limitada ou à inércia.

Akerlof, hoje na Universidade Georgetown, dividiu o Nobel em 2001 por demonstrar como a informação imperfeita causa descontrole no mercado – quando, por exemplo, quem vende sabe mais sobre o produto (um carro usado, digamos) do que quem compra. Shiller dividiu o Nobel em 2013 por mostrar que vieses psicológicos de investidores podem causar discrepâncias entre preços de ativos e seu valor fundamental.

Embora as descobertas da economia comportamental hoje sejam amplamente aceitas, aplicá-las de forma prática não é simples. Os governos buscam formas de usar a economia comportamental para melhorar políticas e a prestação de serviços. Inspirado no livro “Nudge”, best-seller dos economistas comportamentais Richard Thaler e Cass Sunstein, o Reino Unido montou uma “equipe de insights comportamentais”. No ano passado, a Casa Branca (onde Sunstein trabalhou no governo Barack Obama) fez o mesmo. Na semana passada, Obama instruiu agências federais a incorporar a ciência comportamental em seus programas.

Até aqui, foram bastante modestas as inovações concretas produzidas pela economia comportamental. Um trabalhador é mais inclinado a contribuir para o plano de aposentadoria complementar da empresa se receber um “empurrãozinho”. Quando jovens de baixa renda recebem informações melhores e o apoio simplificado de planos governamentais, é maior a chance de que entrem na faculdade e concluam o curso.

Essas inovações foram fortemente corroboradas por evidências experimentais. Mas volta e meia a economia comportamental é usada para justificar preferências políticas existentes com mínimo suporte empírico. Defensores de padrões de eficiência energética e subsídios vivem dizendo que o consumidor sistematicamente subestima a economia futura que carros, casas e aparelhos mais eficientes produziriam. Kip Viscusi, da Universidade Vanderbilt, e Ted Gayer, da Brookings Institution, dizem que 85% dos benefícios de aumentos recentes em padrões de eficiência energética de veículos são justificados por essa “irracionalidade do consumidor”.

Mas eles observam que o governo já exige que todo automóvel novo venha com uma etiqueta com uma leva de informações sobre a economia de combustível; obrigar o consumidor a comprar veículos mais eficientes sugere que tais etiquetas são “inúteis”. E o consumidor não parece irracional quando avalia a economia de combustível; um estudo revelou que mudanças no preço da gasolina estão intimamente refletidas nos preços relativos de veículos usados de menor eficiência energética.

Akerlof e Shiller têm toda razão em dizer que o lucro de empresas às vezes vem da venda de coisas que o consumidor não quer de verdade. É mais comum, no entanto, que uma empresa – como a Apple – se dê bem por descobrir o que o consumidor quer antes mesmo que ele se dê conta. E, embora sempre haja aquelas que vão agir sem escrúpulos, há toda uma nova safra de empresas – TripAdvisor, Angie’s List, Yelp – cujo negócio é justamente desmascará-las.

Valor Econômico – 25/09/2015

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Preço alto das commodities é como cocaína, diz Pettis

O mundo todo está focado nas previsões de que a China não vai crescer mais 7% ao ano, percepção que para o consultor e professor da Universidade de Pequim, Michael Pettis, está correta. Para ele, o crescimento médio na próxima década será de, no máximo, 4%. Mas o que importa, diz ele, é que a renda das famílias chinesas vai crescer acima disso – entre 5% e 6% -, algo “desejado por muitos países”.

Implementado o profundo ajuste pelo qual precisa passar a economia chinesa, diz Pettis, o consumo vai passar a dar as cartas no lugar do investimento. Isso coloca um ponto final nos tempos de preços de commodities metálicas nas alturas, mas pode significar uma boa notícia não só ao mercado de alimentos, como também para a indústria de países em desenvolvimento.

O economista, porém, não poupa críticas ao Brasil, ao dizer que o país não fez a coisa certa ao voltar a concentrar esforços na exportação de commodities. “O preço das commodities em alta é como cocaína”, diz. “Hoje, há um grande realinhamento de preços e acredito que a estratégia vai se provar um erro”. Para Pettis, a Índia poderá ajudar a aliviar as pressões que pesam sobre o resto do mundo. “Mas eu não vejo que outro país possa ter esse papel”. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Valor:O senhor parece pessimista com os desdobramentos da economia chinesa e o impacto disso sobre países como o Brasil. É isso?

Michael Pettis: Tenho a mesma visão sobre a China desde 2006, 2007. Ela está envolvida em um modelo de crescimento orientado por investimentos com o qual temos grande familiaridade. Por exemplo, o Brasil no fim da década de 1960 e início dos anos 1970 teve o mesmo modelo. Um dos aspectos desse modelo é que em seus estágios finais, sem exceção, há um crescimento insustentável da dívida seguido de um ajuste bastante difícil. Por anos, as pessoas acharam que eu era muito pessimista sobre a China, mas agora veem que é exatamente isso que está acontecendo. Os receios acerca da China estão se tornando tão grandes que já há quem diga que o país vai passar por uma crise econômica.

Valor:O que o sr. acha?

Pettis: Acho até possível, mas bastante improvável. Meu cenário básico para a China é que nos dez anos de governo do presidente Xi Jinping, ou seja, de 2013 a 2023, o país não vai crescer mais do que 3% ou 4%, o que seria consistente com os precedentes históricos. Quando se olha para outros ajustes, é difícil concordar com números mais altos. Mas não é isso que importa, o que interessa são outros fatores. Se a China se ajustar e o PIB crescer 3% ou 4%, a renda das famílias chinesas deve crescer mais rápido do que isso – é isso o que esse ajuste significa. Logo, a China só vai crescer 3% ou 4%, mas a renda das famílias comuns chinesas ainda vai crescer 5% ou 6%, o que é realmente bom. Muitos países adorariam ter esse cenário. A única dificuldade é que, por muitos anos, a renda das famílias cresceu abaixo do PIB e a grande beneficiária disso foi a elite. Mudar isso significa um problema político e não econômico e essa é a razão dos ajustes estarem se provando tão difíceis. É também o motivo pelo qual os primeiros passos do presidente terem sido centralizar o poder para implementar as reformas necessárias. Desde 2007, quando o governante anterior começou o processo de ajuste (e falhou), se reconhece que a dificuldade de impor as reformas se deve à oposição de quem tem interesses contrariados.

Valor:Os problemas políticos na China superam os econômicos?

Pettis: A questão política é sempre um problema seja no Brasil, na União Soviética ou na China. Albert Hirschman [economista de origem alemã estudioso do desenvolvimento], um dos meus economistas favoritos e que veio várias vezes ao Brasil, explicou esse processo: políticas de sucesso desenvolvem suportes institucionais bastante fortes. Mas o histórico de países em desenvolvimento mostra que, quando se mostra necessário reformar essas políticas, são encontradas dificuldades, não porque o governo não saiba o que fazer, mas porque a oposição institucionalizada é muito forte.

Valor:E o que isso significa para países como o Brasil?

Pettis: Na verdade, não é só um problema com a China, mas global. Na China, mas também nos EUA, por exemplo, a desigualdade de renda está nos níveis históricos mais altos. Adicionalmente, em outros países, como a Alemanha, a fatia da renda das famílias no PIB é muito baixa. As duas coisas podem parecer diferentes, mas estamos falando da mesma coisa porque em ambos os casos o foco é aumentar a poupança e reduzir o consumo, afinal os ricos não consomem ou o que eles consomem é uma parte muito pequena de suas rendas. Logo, num mundo como esse, os investimentos privados também caem, afinal por que construir uma fábrica se ninguém vai comprar o produto? É um problema de demanda insuficiente que ocorre na China, mas é ainda pior em outros países. Assim, a China é apenas parte de um problema que é global.

Valor:O sr. parece bastante pessimista…

Pettis: Isso até agora tem se mostrado uma boa estratégia. Nós realmente temos um problema. A desigualdade de renda se aproxima dos níveis da década de 1920 ou 1970 quando primeiro tivemos um boom no mercado de ações que alimentou o consumo. Depois, anos de depressão e alto desemprego. Em países como EUA, Espanha ou França, a maneira como se resolveu a questão da desigualdade foi por meio do aumento do endividamento e do consumo da classe média. E isso acontece hoje, por exemplo, em países como a Venezuela em que a redução da desigualdade de renda não ocorreu por meio de transferência de riqueza, mas por endividamento. É importante que tenha acontecido, mas não acredito que seja sustentável, especialmente porque é dependente dos preços do petróleo. Não sei como a estrutura funcionou no Brasil, mas se o processo de redução de desigualdade dependeu dos preços de commodities, acredito que ele esteja no fim.

Valor:Ou seja, teremos problemas…

Pettis: Todo mundo tem. O sinal positivo pode vir da Índia que tem uma fonte enorme de demanda e uma infraestrutura muito ruim. Eles precisam de investimento em infraestrutura, embora tenham problemas históricos com burocracia. Se o governo conseguir contornar essa questão, a Índia pode ajudar a aliviar as pressões que pesam sobre o resto do mundo. Mas eu não vejo que outro país possa ter esse papel.

Valor:O que esperar para preços de commodities?

Pettis: As commodities metálicas vão continuar em queda, particularmente minério de ferro. Não faz muito tempo, a China consumia cerca de 5% do minério de ferro produzido pelo mundo. Em 2012, o consumo chinês chegou a 63%. Nem mesmo os EUA consumiram uma fatia tão grande. E isso ocorreu na China em razão do investimento maciço em infraestrutura. Então, a história do minério de ferro é a história da China. Agora o país apenas começou o ajuste de sua economia e o crescimento começou a desacelerar. Investimento e consumo têm que trocar de lugar. Assim, mesmo que o crescimento do PIB desacelere um pouco, a expansão do investimento tem que desacelerar muito. E é esse crescimento do investimento que orientava a demanda por commodities. Mas com alimentos isso deve ser diferente.

Valor:Diferente de que forma?

Pettis: Mesmo se a economia chinesa se ajustar e o crescimento econômico desacelerar para 3% ou 4%, a renda da população chinesa deve crescer acima disso, entre 5% e 6%. E se a população ficar mais rica, ela não só vai comprar mais comida como vai consumir mais carne, que, como é sabido, aquece o mercado de grãos. Logo, isso poderia ser muito positivo para os preços de commodities agrícolas, a depender se a China terá um ajuste destrutivo ou não.

Valor:Isso poderia ser uma boa notícia para o Brasil, não?

Pettis: Sim. Isso poderia ser também uma boa notícia para a manufatura brasileira. O avanço da indústria chinesa não foi necessariamente guiado por produtores mais eficientes. Foi o yuan subvalorizado. Além disso, a renda cresceu abaixo da produtividade e, dentre as grandes empresas, era possível emprestar a taxas de juros negativas. Logo, estando no México ou no Brasil não era possível competir. Mas reequilibrar a economia chinesa significa sair desse cenário. O yuan ainda está um pouco subvalorizado, mas não muito. Desde 2010, os salários começaram a subir mais rápido e, mais importante, as taxas de juros, em termos reais, subiram significativamente. Como resultado, companhias que não conseguiam competir com a China começam a reagir. Estamos começando a ver isso no México, por exemplo. O problema é que, no Brasil, a confiança excessiva em commodities é um grande problema. A lição até foi aprendida décadas atrás e nos anos 1980 e 1990 o país fez grandes esforços para voltar a economia para a manufatura. Mas preços das commodities em alta são como cocaína. Quando os preços das commodities aumentam, as pessoas simplesmente se esquecem de tudo. Hoje, há um grande realinhamento de preços e acredito que a estratégia vai se provar um erro.

Valor Econômico – 25/09/2015

 

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Yellen reitera que Fed deve aumentar juros neste ano

A presidente do Federal Reserve (Fed) Janet Yellen fez ontem sua mais detalhada defesa, até agora, para o banco central dos Estados Unidos começar a aumentar suas taxas de juros de curto prazo ainda este ano, efetivamente alertando os mercados financeiros de que a decisão do Fed de manter as taxas próximas de zero na semana passada não foi uma mudança para um adiamento ilimitado do aperto monetário.

Janet Yellen defendeu seus pontos de vista como um promotor que afaz uma argumentação de encerramento em um tribunal. Ela os apresentou em um discurso de 40 páginas proferido na Universidade de Massachusetts em Amherst, que incluiu 40 citações acadêmicas, 34 notas de pé de página, nove gráficos e um apêndice.

O ponto central de seu argumento foi a crença de que a frouxidão da economia diminuiu ao ponto em que as pressões inflacionárias devem começar a aumentar gradualmente nos próximos anos.

Essas pressões ainda não estão se impondo, disse ela, porque a valorização do dólar e a queda do petróleo e dos preços das importações exercem temporariamente uma pressão de baixa sobre os preços ao consumidor. Na medida em que esses ventos contrários diminuírem, previu ela, a inflação começará gradualmente a subir. O Fed precisa se adiantar a isso, continuou, e também impedir forças especulativas nos mercados financeiros que possam levar à “tomada inadequada de riscos que possa minar a estabilidade financeira”.

“Provavelmente será apropriado aumentar a meta para os federal funds em algum momento até o fim do ano, e continuar aumentando as taxas de juros de curto prazo num ritmo gradual depois disso, na medida em que o mercado de trabalho for melhorando e a inflação retornar para a nossa meta de 2%”, disse Janet Yellen no texto preparado para o discurso.

O Fed vem alertando há meses que espera aumentar os juros este ano. Os investidores estão começando a duvidar disso, especialmente depois que o Fed decidiu não agir na semana passada, após semanas preparando o terreno para uma possível alta dos juros este mês. Nos mercados futuros, antes do discurso de ontem, operadores apostavam em 35% de probabilidade de o Fed aumentar os juros antes do fim do ano, segundo a Bolsa Mercantil de Chicago (CME). Além disso, os operadores apontaram chances ainda menores de uma movimentação até janeiro.

A incerteza em relação aos planos do Fed tem provocado volatilidade nos mercados financeiros, O índice industrial Dow Jones caiu 3,2% desde a reunião da semana passada do Fed.

A decisão do Fed de não subir os juros reverberou ao redor do mundo, levando muitos bancos centrais a mudar para políticas mais frouxas. Esta semana, Noruega, Taiwan e Ucrânia reduziram suas taxas de juros. Enquanto isso, os investidores acumulam bônus europeus, antecipando que o Banco Central Europeu (BCE) lance um novo programa de compra de bônus para estimular a economia e a inflação. Outros bancos centrais que poderão responder a uma alta dos juros pelo Fed com suas próprias altas – incluindo os do México e Turquia nesta semana -, preferiram manter suas taxas.

“É muito difícil para a maioria dos bancos centrais operarem independentemente do Fed, especialmente nos mercados emergentes”, disse David Hensley, economista do J.P. Morgan, antes do discurso de Janet Yellen. “Ao adiar a alta, o Fed talvez tenha aberto involuntariamente as portas para políticas monetárias mais frouxas ao redor do mundo, pelo menos por enquanto.”

Os comentários de Yellen ontem vão alterar esse cálculo. “Alguns pontos fracos permanecem nos mercados de trabalho e os efeitos dessa fraqueza e a influência dos preços mais baixos da energia e a valorização do dólar são fatores que vêm mantendo a inflação abaixo de nossa meta”, disse. “Mas acredito que a inflação retornará aos 2% nos próximos anos, na medida em que os fatores temporários que estão pesando sobre a inflação forem desaparecendo.”

Valor Econômico – 25/09/2015

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A diferença que o câmbio faz

Por Denise Neumann | De São Paulo

Em mesas um pouco distantes daquelas em que quase não se respirou na semana em que o dólar ultrapassou R$ 4, cálculos diferentes estão sendo feitos e e-mails estão sendo escritos, detonados pela nova cotação da moeda nacional. Produção e consumo no Brasil são hoje muito diferentes de quando o real esteve em patamar semelhante, e por isso o impacto tende a ser distinto. Entre as mudanças, um em cada cinco produtos comercializados no Brasil é importado. Se antes o câmbio era ganho para o exportador, hoje ele é custo e traz uma sensação de perda de bem-estar para famílias que se acostumaram a consumir produtos “made in”, enquanto eleva a dívida de centenas de empresas. Muitos festejam, alguns se preocupam, outros lamentam.

Luiz Carlos Mendonça de Barros, presidente da Foton Caminhões, escreveu uma longa e detalhada mensagem para a matriz, na China. Ele informava que o “novo” câmbio permitiria à fábrica brasileira vender na América Latina um caminhão de 10 toneladas por quase o mesmo preço com que o veículo sai da Foton chinesa. Ele conta que, no fim de 2010, o caminhão sairia da fábrica custando US$ 48,1 mil. Cinquenta meses depois e quase 50% de câmbio real a mais, o custo brasileiro é de US$ 20,3 mil, um pouco menor que o valor pelo qual a China vende o mesmo bem. “O ganho de competitividade para a indústria é imenso”, resume, em referência ao real desvalorizado.

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Se na última linha da planilha as contas da Foton são animadoras para a fábrica que começa a produzir em janeiro, a escalada do câmbio atrapalhou os planos de outra filial chinesa. A equipe de Marcelo Antonelli, CEO da Zoomlion no Brasil, tem quebrado a cabeça para manter o índice de nacionalização nas betoneiras que produz e que são vendidas no âmbito do Finame. A empresa começou a produzir em fevereiro com 83% de valor local, mas as notas fiscais que precisam ser apresentadas para comprovar que a importação não supera 40% do valor final do veículo, quando convertidas para reais, tornam a equação complicada e indicam uma participação doméstica já próxima do limite. “É um desafio”, resume o CEO. Para reponderar a equação, diz ele, falta parceiro local. “Desenvolver o fornecedor nacional demora”, acrescenta, convicto de que para a empresa o saldo final do “novo” câmbio é uma alta brutal de custos.

A falta de parceria local identificada pelo CEO da Zoomlion aparece de outra forma em um amplo estudo conhecido como Atlas da Complexidade Econômica, desenvolvido pelos professores Ricardo Hausmann, de Harvard, e Cesar Hidalgo, do MIT Media Lab. Entusiasta desse trabalho, Paulo Gala, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) em São Paulo, explica que ele analisa (por algoritmos) a produção de 120 países, identificando quanto cada um produz de uma lista de 750 produtos.

Quanto mais diversificada e de valor agregado é a produção de uma nação, maior seu índice de complexidade. Em 2003, Brasil e China estavam com um nível semelhante, próximo a 0,4, dentro de um máximo de 2,5 a 3 e um mínimo de igual proporção, dependendo do ano. Desde então, o Brasil regrediu (para quase zero), enquanto a China avançou e chegou a 1,1. “A estrutura produtiva brasileira foi destruída, houve uma regressão tecnológica enorme”, diz Gala, apontando a correção desse rumo como fundamental para o crescimento futuro do país.

A destruição ocorreu especialmente a partir de meados da década passada como decorrência do boom das commodities e da consequente sobrevalorização do real. O Brasil passou a produzir cada vez mais bens industriais de prateleira, que todo mundo produz e vende. “Perdemos complexidade, aumentamos a produção de soja, minério e petróleo”, observa Gala.

Com a compreensão de quem já transitou em diferentes áreas da economia brasileira – ele já foi ministro das Comunicações, presidente do BNDES e diretor da Quest Investimentos -, Mendonça de Barros diz que a taxa de câmbio é um dos preços mais complexos em países como o Brasil, onde suas dimensões financeira (com grande liquidez no mercado futuro) e econômica são igualmente fortes. A combinação dos dois é que determina a taxa média, e durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e o ano de 2014, a dimensão internacional prevaleceu em decorrência das commodities, da grande confiança no país e dos juros altos.

“Quem sofreu ao longo desse período foi a indústria”, diz ele, chamando atenção para a forte perda de competitividade das exportações e o consequente aumento das importações. O peso da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB) recuou de quase 20% para 10%, e parte importante do mercado doméstico passou a ser atendido por bens importados, com a China ocupando o primeiro lugar na cadeia de novos fornecedores.

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O hoje industrial Mendonça de Barros acredita que não há mais espaço para uma revalorização expressiva do real. Talvez o câmbio não fique perto de R$ 4, mas ele aposta em uma taxa competitiva que permita que exportadores reocupem espaços na exportação e no atendimento da demanda doméstica, quando ela voltar. “A indústria não vai mais comprar tudo que compra hoje na China”, argumenta.

A balança comercial brasileira já traz uma melhora expressiva em relação ao ano passado. No acumulado do ano, até agosto, o país saiu de um déficit de quase US$ 1 bilhão em 2014 para US$ 6,3 bilhões de superávit em 2015. As exportações ainda caem, mas o recuo é muito maior nas importações.

No ano passado, a coreana Samsung foi a segunda maior importadora do país, trazendo quase US$ 4 bilhões em componentes de bens que seriam montados no Brasil, produtos finais e peças de reposição (a fabricante de eletroeletrônicos, celulares e computadores importou mais que a Embraer). Neste ano, seu peso será muito menor, pois suas compras foram 34% menores de abril a agosto em relação aos mesmos meses do ano passado. Movimento semelhante aconteceu com LG Eletronics e Flextronics, outras duas gigantes importadoras de peças para montagem local e de bens finais no mesmo segmento de bens de consumo em que a Samsung opera. No segundo quadrimestre, a LG já cortou as importações em quase 50%, e a Flextronics, em 35%.

Determinada pela queda da demanda, essa retração da importação pode abrir espaço para um aumento da produção doméstica, pois a tendência é o preço externo ficar mais caro, se a desvalorização nominal do câmbio não virar toda real. O professor da Universidade de São Paulo (USP) Fábio Kanczuk é cético a esse respeito. No seu modelo (que é diferente do adotado pelo Banco Central), cada 10% de desvalorização do real se transforma em 0,7 ponto percentual de inflação ao consumidor, uma variável condicionada à atividade e à política monetária. Uma recessão reduz esse percentual, enquanto um Banco Central mais frouxo o aumenta. Sem um forte ajuste fiscal, só mais juros conseguirão conter o repasse da desvalorização do real aos preços, avalia o professor da USP, um cenário que ele considera possível.

Kanczuk é mais incisivo sobre o impacto do câmbio na atividade. Para ele, a nova taxa ajuda a derrubar o PIB. “Mais câmbio significa ou mais inflação ou mais aperto monetário”, diz ele, ponderando a demanda doméstica e o investimento pesam mais que as exportações no PIB e serão negativamente afetados porque ficarão mais caros de um jeito ou de outro. Como quem “ganha” é um pedaço menor do PIB, o efeito será contracionista. Essa situação, explica, é potencializada porque a atual desvalorização do real provém de um choque de risco.

Nos anos de 2005 e 2006, a Democrata, tradicional fabricante de calçados, exportava o equivalente a 50% da sua produção. Nos anos seguintes, lentamente, mas de uma forma quase constante, ano a ano, a empresa foi se afastando dos grandes compradores mundiais. “Estamos em um processo de retomada, mas nem sempre ela é exitosa”, conta o diretor comercial da companhia, Marcelo Paludetto. “Estivemos vários anos ausentes de muitos mercados, vai demorar para voltarmos, e em alguns mercados isso significa começar do zero.”

Ao longo desse período, pondera, os concorrentes não estiveram parados. Portugal e Espanha aumentaram sua produção no pós-crise e outros fornecedores da Ásia melhoraram a qualidade do produto. A China, lembra, não faz mais só calçado de menor valor agregado. Por enquanto, diz Paludetto, ele não fechou nenhum contrato com cliente novo ou reconquistado depois que o câmbio se firmou acima de R$ 3. “Mas esperamos que isso aconteça e ajude a produção em 2016”.

Convicta de que a “volta” não poderá ser feita só com preço, mas exigirá também um produto inovador e muito design, além da qualidade que sempre marcou sua produção, a Democrata avalia que é um momento em que vai precisar de uma equipe já qualificada. Por isso, mesmo sem aumento de vendas em relação ao ano passado, sua intenção é manter o quadro de funcionários.

Toda a indústria de calçados parece ter uma preocupação semelhante. Embora a produção ainda caia em relação a 2014 e as exportações ainda não mostrem reação significativa, o setor é praticamente o único cujo saldo entre admissões e demissões é positivo neste ano. De janeiro a julho, o setor abriu 6 mil novas vagas, um volume menor do que em igual período de 2014, mas ainda positivo, situação que destoa do resto da indústria de transformação, que fechou 232 mil vagas neste ano.

O lado economista de Mendonça de Barros tem identificado sinais positivos, embora ainda tímidos, da desvalorização da taxa de câmbio brasileira, um movimento que ele considera “estrutural” e cujos efeitos sobre a balança comercial brasileira serão mais intensos em 2016. Ele cita reportagem recente do Valor que mostrou que a balança comercial do setor automotivo entre Brasil e México, sempre muito favorável aos mexicanos, começou a virar a favor do Brasil. No acumulado de janeiro a agosto, o déficit caiu pela metade, e o Brasil mandou 35 mil carros para o parceiro latinoamericano, um volume 65% maior. A mudança na política cambial da China, ressalta ele, também provocou uma desvalorização do real em relação ao yuan superior a 40% em 2015, muito próxima a do dólar.

Para Mendonça de Barros, muitos analistas erram ao creditar apenas à recessão o que está acontecendo no comércio exterior. No grupo Papaiz, por exemplo, já há substituição de importação. A empresária Sandra Papaiz, presidente do conselho de administração, diz que desde o começo do ano já zerou o pouco de importação e “outsourcing” (produção terceirizada em outro país sob supervisão local) que fazia e trocou por fabricação doméstica e também já aumentou um pouco as exportações. O grupo, que faturou R$ 252 milhões no ano passado, já exportou 30% no passado e hoje exporta cerca de 15% da produção. “Nunca acreditei na importação amalucada, eu sabia que chegaria o dia da maxidesvalorização”, diz ela, lembrando que a empresa tem 63 anos e não é a primeira vez que a executiva vê taxa de câmbio perto de R$ 4 e “nem será a última”.

“Ninguém está chamando o que estamos vivendo de maxidesvalorização, e ela não é mesmo como a de 1999, quando o real depreciou 40% em um só dia, mas desde o começo do ano já foi quase 50%”, argumenta. Sandra olha com tranquilidade para o atual momento. Sua receita, diz, é nunca se jogar totalmente para um único lado, nem na exportação nem na importação. “Tem indústrias que pararam de produzir aqui e que hoje importam 70%, 80% do que vendem. Para essas, voltar a produzir vai ser muito difícil”.

Da mesma forma, diz, quem tomou empréstimo em dólar pode ficar em situação complicada, como estavam, aqueles que antes só exportavam. “Empresário não pode cair no canto da sereia”, vaticina, ponderando que a crise atual é cíclica. Ela espera que a saída para sua área de atuação venha da costrução “formiga” e das pequenas e médias empresas do setor de construção.

No caso da Papaiz, o peso do “outsourcing” e da importação para complementar o mix variou entre 5% e 8% nos últimos anos. “Foi uma opção de custo. Quando alguns itens ficaram realmente mais baratos no exterior, passamos a importar, mas nunca perdemos a capacidade de fazer a produção local. Era só porque ficava mais barato importar e daí dava preguiça de produzir aqui”, diz Sandra. Com o novo patamar do câmbio, nada mais é importado ou produzido fora. “Voltamos a fazer tudo aqui”, explica a empresária.

A Zoomlion, além da produção de betoneiras, atende o mercado por uma linha de produtos importados com máquinas que vêm da Alemanha, Itália e China. “E alguns produtos não tem similar nacional, esse é o maior desafio, não tem como fazer aqui”, diz ele. Além disso, empresa também mantém uma forte operação de reposição de peças, cujo preço foi reajustado nessa semana. “Não tenho como arcar com o custo desse novo câmbio, até porque não vemos espaço para que ele caia”, diz Antonelli, preocupado com a cotação do dólar quando chegarem máquinas já encomendadas. Depois do pedido, elas demoram de 60 a 90 dias para chegar. “Importei por um preço, vou pagar outro bem mais caro”, pondera.

Para o professor Nelson Marconi, coordenador-executivo do Forum de Economia da FGV, trazer a produção que foi transferida ou perdida por conta da importação pode ser mais complicado para empresas que não se mantiveram atualizadas tecnologicamente, e em alguns casos vai demandar aumento do investimento para que a indústria possa ganhar produtividade, um elemento-chave para a recuperação mais consistente da produção doméstica, seja para atender o mercado externo, seja para recuperar a parcela doméstica “perdida” para os bens importados.

No Fórum de Economia da FGV São Paulo, na semana passada, vários participantes apresentaram um mesmo gráfico, originalmente elaborado pelo professor Carlos Antonio Rocca, do Centro de Estudos do Mercado de Capitais (Cemec). O gráfico cruza o custo médio de capital no Brasil com o retorno sobre o capital investido e ele mostra que entre 2005 e 2007, o retorno do investimento superava seu custo, mas a rentabilidade foi caindo e no ano passado estava em apenas 6,7%, menos da metade do que era preciso pagar de juros no mercado financeiro para sustentar um projeto.

A desvalorização do real vai elevar ainda mais a conta do custo do investimento. Máquinas importadas ficarão mais caras, o que pode provocar uma queda ainda maior nesse componente do PIB e aumentar a recessão, pondera Fabio Kanczuk, da USP. Paulo Gala, da FGV, concorda que o custo do investimento vai subir justamente no momento em que a recuperação da produtividade exige modernização da indústria que perdeu “densidade”, mas pondera que a lucratividade mais elevada vai compensar esse custo. “Quando o real estava valorizado, comprar uma máquina estava mais barato, mas o custo de produção não compensava, e o investimento não era feito”, diz.

A melhora na rentabilidade já fez diferença para empresas exportadoras no segundo trimestre deste ano. Levantamento feito pelo Valor Data com 248 empresas não financeiras mostra que a receita líquida nos meses de abril, maio e junho subiu 9%, apenas acompanhando a inflação, segundo relatou a repórter do Valor Daniela Meibak. A partir dessa amostra, foram compilados dados de 41 empresas exportadoras e com atividades fora do país, que detalham os dados de receita, e 80% mostraram avanço na participação de ganhos no exterior em relação à receita total. Na busca pelo mercado externo, por exemplo, a receita total da WEG subiu 29% nos meses de abril, maio e junho de 2015, mas o faturamento no exterior cresceu 41% no mesmo período. A participação do mercado externo na receita total saiu de 51% para 55%. A fabricante de porcelanatos e revestimentos cerâmicos Portobello teve melhora de 50% nas vendas ao mercado externo, o que puxou o crescimento dos resultados no trimestre. A Alpargatas, fabricante de calçados, também foi beneficiada por essa estratégia e mostrou avanço de 14% na receita total do período, explicada pelas vendas ao mercado internacional, e a participação do mercado internacional na receita total saiu de 37% para 45,4%.

Na outra ponta, muitas empresas brasileiras – a Petrobras entre elas – possuem dívidas em dólar, que crescem em um momento em que a recessão impedirá que as receitas subam e compensem esse custo adicional. No segundo trimestre, o câmbio havia recuado na comparação com o fim de março, mas no dia em que o dólar passou de R$ 4, na quarta-feira, a alta acumulada de 30% no terceiro trimestre trazia potencial para um estrago bilionário no resultado das companhias abertas, relataram os repórteres do Valor Renato Rostás, Camila Maia, Stella Fontes e Fernando Torres. Na Petrobras, o efeito podia ser de um aumento de R$ 70 bilhões, enquanto o potencial de alta nas dívidas de Vale, CSN, Gerdau, Usiminas, Suzano, Klabin e Fibria era de R$ 40 bilhões. Em um primeiro momento, esse efeito é contábil, mas se a desvalorização se mantiver nesse patamar, em algum momento a dívida deverá ser paga e afetará o caixa das companhias.

Marconi lembra que, em uma economia aberta, a competitividade das empresas nacionais depende da sua taxa de lucro ser compatível com a de seus competidores no mercado internacional. E para que isso ocorra, os custos também precisam ser semelhantes, quando convertidos para a mesma moeda. O problema é que no Brasil, nos últimos anos, o custo unitário do trabalho cresceu muito, e acima da produtividade. O câmbio, diz ele, pode compensar esse diferencial dos salários acumulado nos últimos anos. Outra possibilidade era fazer essa correção pelo salário, como fizeram Grécia e Espanha, pondera Marconi.

Em um segundo momento, acrescenta o coordenador do Forum da FGV, os ganhos precisam vir da produtividade e da manutenção de uma taxa de câmbio competitiva, o que demandará uma política salarial mais moderada, cujo exemplo deve vir, diz ele, da política de correção do salário mínimo. O modelo de correção pela inflação mais o PIB de dois anos antes precisa ser revisto, defende ele. “Sem outra política salarial, todo ano será preciso desvalorizar a taxa de câmbio”, argumenta. Nas contas do Centro de Estudos do Novo Desenvolvimentismo, a taxa de câmbio que hoje devolve competitividade à indústria está próxima a R$ 3,70.

O primeiro passo para a taxa se manter competitiva é o Banco Central absorver o choque da desvalorização, diz Mendonça de Barros, que não quer palpitar se isso vai demandar mais aumento de juros. Kanczuk vê espaço para isso, e ele e Gala lembram que é fundamental que a política fiscal seja realmente contracionista e ajude a monetária nesse momento. “No fundo estamos discutindo qual o tamanho da recessão necessária para que o ajuste de preços relativos ocorra”, pondera Gala. Ele vê o “melhor” momento dos últimos anos para que isso aconteça na economia brasileira.

E o ajuste também afeta a população, pelos salários e pelo consumo. Pela primeira vez desde 2003, os turistas brasileiros reduziram seus gastos no exterior em relação ao ano anterior. Entre janeiro e agosto deste ano, as despesas com turismo internacional foram 26% menores do que em igual período do ano passado. Em dólares, o salário mínimo valia US$ 207, considerando o dólar médio do mês de setembro. Com a taxa em R$ 4, ele cairia para menos de US$ 200, o que só aconteceu em 2009, quando o stress da crise internacional também impactou fortemente o câmbio no Brasil.

A contração do mercado interno já leva a indústria a planejar que uma parte da capacidade instalada será usada nas exportações. A fábrica da Foton foi montada para produzir inicialmente 2,5 mil caminhões por ano (com 73% de nacionalização, no primeiro modelo), um volume que pode crescer até 7 mil em um segundo momento, mas foi planejado apenas para o mercado interno, diz Mendonça de Barros. “A Foton da China já exporta 5 mil caminhões por ano para a América Latina”, informa ele, enquanto pondera que além do custo no Brasil estar quase igual, a distância é uma desvantagem chinesa. “Leva quase dois meses para o caminhão chegar aqui, e o cliente precisa de agilidade. Eu entrego em 3 a 5 dias”, pondera, lembrando que seu contrato com a Foton chinesa prevê que ele pode abastecer a vizinhança.

Nas estimativas da Democrata, a exportação pode crescer para 25% da produção em 2016, mas esse aumento não deve compensar o mercado interno mais fraco em função da crise doméstica, que cresceu ao longo do ano. Na Papaiz, a perspectiva é semelhante. O mercado doméstico vai se manter contido por mais algum tempo, e o aumento esperado para a exportação no curto prazo não vai segurar toda a produção que não está sendo absorvida pelos consumidores domésticos. Mas, como diz a empresária Sandra Papaiz, os negócios são ciclicos. “Não estamos passando por nada disso pela primeira vez.”

Clima domina agenda de Dilma nos EUA

A presidente Dilma Rousseff terá hoje o seu primeiro dia de agenda em Nova York, onde vai anunciar no domingo as metas do Brasil para a redução de emissões dos gases do efeito estufa na Cúpula das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável. Nesta sexta-feira, Dilma vai assistir ao discurso do papa Francisco na abertura da conferência, mas não falará no evento. À noite, a presidente participa de recepção oferecida pelo primeiro-ministro da Suécia, Stefan Lofven, em apoio à implementação da Agenda Desenvolvimento pós-2015, que vai substituir os chamados Objetivos do Milênio, que expiram neste ano. A chanceler alemã, Angela Merkel, também estará no jantar.

À tarde, é possível que Dilma tenha algumas reuniões bilaterais com outros chefes de Estado e de governo, mas nenhum nome estava confirmado até ontem à noite. As negociações para a reforma ministerial adiaram a partida da presidente de Brasília, que tinha sua chegada a Nova York prevista para a madrugada desta sexta-feira.

No domingo, Dilma falará na Cúpula sobre Desenvolvimento Sustentável, quando deverá anunciar os compromissos do Brasil com a redução de emissões, a serem apresentados na COP21, a conferência global sobre mudança climática que vai ocorrer em Paris, em dezembro. A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, acompanha a presidente, assim como os ministros Mauro Vieira (Relações Exteriores), Luiz Inácio Adams (Advocacia-Geral da União) e Eleonora Menicucci (Secretaria de Políticas para as Mulheres).

Na segunda-feira, Dilma fala na abertura da Assembleia Geral da ONU. Ela deve tratar dos avanços sociais obtidos pelo Brasil nos últimos anos, afirmar o compromisso com os objetivos do Desenvolvimento Sustentável e defender a reforma do Conselho de Segurança. No sábado, participa da reunião de Cúpula do G-4, formado por Brasil, Alemanha, Índia e Japão.

Valor Econômico – 25/09/2015

Redação On setembro - 25 - 2015
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