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Sexta-feira, 19 de Julho de 2019






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A bomba fiscal é antiga, apenas amadureceu

Antonio Delfim Netto – 04/08/2015

É um horrível lugar-comum repetir que o bom funcionamento do sistema econômico depende da confiança. Mas pior do que ser um lugar-comum, é o fato que a proposição é absolutamente verdadeira!

Se, por qualquer motivo, os agentes econômicos veem o governo baseado em objetivos ambíguos, sistematicamente otimistas, às vezes contraditórios, resiliente em reconhecer clara e francamente as dificuldades que vivenciam, a necessária confiança entre eles, que é a condição necessária para que o sistema funcione, dá lugar a incertezas que mudam o seu comportamento. Assumem uma atitude defensiva à espera de tempos melhores.

O trabalhador, inseguro com o seu emprego, previne-se reduzindo suas dívidas, restringindo o seu consumo, procurando ficar “líquido” e, se pode, procura aumentar sua poupança. O empresário, ao pressentir o mau tempo, tenta livrar-se de seus estoques, reduz o ritmo da sua produção e, assim transfere mais insegurança aos trabalhadores ainda empregados. Procura aumentar a sua “liquidez” na tentativa de enfrentar as dificuldades que o esperam.

O banqueiro entra em pânico: aumenta os juros, reduz o crédito e aperta os devedores para aumentar a sua “liquidez”. Para ele, a iliquidez não é só a dolorosa letargia do consumidor e do empresário. Pode ser a morte súbita!

O resultado desses movimentos criados pela desconfiança entre os próprios agentes, e de todos eles com o governo, não pode ser modificado pelo setor privado por causa de um paradoxo muito conhecido: o que vale para um não vale, necessariamente, para todos. Por exemplo, um trabalhador pode salvar-se dos problemas causados pelo comportamento pouco cauteloso que o levou à insolvência, cortando o seu consumo, mas isso não vale para todos os trabalhadores ao mesmo tempo.

Se todos, a maioria dos quais enfrenta suas restrições orçamentárias com resignação, forem induzidos a criar uma “expectativa” de desemprego e tentarem superá-la cortando juntos o seu consumo, criam-se as condições para que a profecia se realize. Cairá o consumo geral, cairá a demanda efetiva, cairá o PIB e, ai sim, ele será mesmo, desempregado. O verdadeiro paradoxo é que, quando trabalhadores, empresários e banqueiros ficarem “líquidos”, todos morrerão afogados na “liquidez”… A volta à normalidade exige o retorno da confiança entre eles e, deles, com o governo.

O regime que chamamos de capitalismo tem graves defeitos, mas, de longe, é o mais amigável que o homem “descobriu” até agora, para possibilitar um razoável grau de liberdade de iniciativa individual, com uma necessária amplificação da igualdade de oportunidades acompanhadas de relativa eficiência produtiva.

Há, entretanto, crises muito mais severas do que as endógenas, isto é, produzidas pelo próprio comportamento cíclico do setor privado no capitalismo. São as em que se mergulha quando o próprio poder incumbente recusa as restrições físicas a que está sujeita a economia e envereda, por miopia política, na feitiçaria econômica portadora da “salvação nacional”. Quando a realidade escondida pelo marketing mágico desce à terra. A confiança desaparece como por encanto.

A situação é ainda mais complicada quando, depois da eleição, se desilude os próprios eleitores. Foi o que aconteceu com a presidente Dilma. Saiu legitimamente eleita com o voto contrário de um pouco menos de 2/3 dos eleitores. Quando teve de enfrentar a verdade da tragédia fiscal de 2014, não a reconheceu explicitamente, mas teve a coragem de fazer uma apropriação da política econômica recomendada por seu adversário. O resultado da manobra foi trágico. Não conseguiu recuperar um voto dos que lhe recusaram seu apoio e perdeu, ainda a confiança de pouco menos de 2/3 do seu eleitorado original. Tem hoje, a confiança de apenas 9% do eleitorado.

Há alguma coisa sinistra e injusta nesses fatos. A aceleração do desequilíbrio geral em 2014 apenas antecipou o desastre fiscal construído desde sempre pelo laxismo com que se tem tratado: 1) a preparação pouco crítica do Orçamento; 2) as reservas de mercado para certos dispêndios com vinculações desde a Constituição de 1988, elas mesmas resultado da falta de confiança da sociedade nos administradores públicos; 3) a insistência em indexações; 4) a facilidade com que se transformou dívida pública em “novos” recursos etc.

A grande verdade é que, pelo menos nos últimos 30 anos, nem a Constituição, nem os governos (nem mesmo FHC, com o magnífico Plano Real e a excelente Lei de Responsabilidade Fiscal) enfrentaram com determinação e firmeza, os problemas do longo prazo.

Não é preciso ser um economista quântico para explicar o desastre que explodiu no colo da presidente Dilma, ainda que ela o tenha cultivado. Basta dizer que a carga fiscal bruta cresceu de 28% do PIB em 1994, no governo Itamar, quando o ministro Ricupero fez um superávit primário de 5,6% e a relação dívida bruta/PIB foi de 40%, para 36,2% do PIB em 2014, quando foi eleita com um déficit primário de 0,6% do PIB e a relação dívida bruta/PIB atingiu 58,9%.

Valor Econômico

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O ajuste sobre os ricos

 Celso Ming – 04/08/2015

A economia brasileira vai afundando no rombo das contas públicas, na disparada da inflação e na quebra dos investimentos que bloqueiam o crescimento, a renda e o emprego.

A política em vigor, o ajuste colocado em prática pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, é insuficiente para obter o reequilíbrio das contas públicas e para relançar as bases para o crescimento. Não há outro caminho: é o ajuste mais as reformas.

Não se pode dizer que não foi tentada outra rota. Desde 2010, o governo do PT colocou em marcha a Nova Matriz Macroeconômica. Foi o que levou a economia ao atoleiro porque se baseou no consumo cevado a subsídios, no crédito fácil e nos juros artificialmente baixos.

Ainda há gente, principalmente entre as chamadas esquerdas brasileiras, que repudia a atual política econômica da presidente Dilma que, embora tardiamente, passou a distribuir a conta da má gestão anterior para a população.

Um desses exemplos de ataque à atual política econômica é do ex-governador do Rio Grande do Sul o petista Tarso Genro. Mas ele não sabe o que propor em troca, como se vê há meses por suas intervenções e que foi corroborado pela entrevista publicada domingo no Estadão.

O ex-governador, que quebrou o Rio Grande a ponto de obrigar seu sucessor a deixar de pagar o funcionalismo público, quer um ajuste que onere só os ricos. A proposta dele é passar a cobrar uma taxa sobre patrimônio; aumentar substancialmente o imposto sobre herança; taxar os ganhos financeiros e impor as reformas. Ele não diz o que pretende das reformas, mas o resultado do que imagina não deve ser diferente das propostas que vem fazendo.

É pobre o ajuste que dependa só dos ricos. Se for concentrado em mais impostos sobre patrimônio, que nenhum país sabe como cobrar; se depender da arrecadação do imposto sobre herança, que precisa esperar que o proprietário morra; e se avançar sobre a renda financeira – que, portanto, alcance fundos de investimento, fundos de pensão e a poupança da classe média -, o ajuste será miserável e, como tal, ineficaz.

Nem os Estados Unidos, nem a área do euro, nem o Japão propuseram receitas parecidas com essas e, no entanto, vêm conduzindo a recuperação que pode ser lenta, mas é segura e sustentável.

Agora que a opção socialista ficou inviável, ex-marxistas, quando assumem funções de governo, têm dificuldades para eleger políticas que garantam fundamentos sólidos para o crescimento e para o emprego. Agarram-se a opções que supõem ser keynesianas, que se baseiam na expansão do consumo obtida por aumentos de despesa pública, sem antes examinar a real situação do Tesouro e sem garantir a expansão da oferta de mercadorias, de serviços e de empregos.

Não existe a opção em que insistiu o partido Syriza à frente da Grécia neste primeiro semestre. A rejeição de um programa construído sobre princípios de responsabilidade fiscal implicou a aceitação de pacote ainda mais duro do que o que foi recusado.

Não dá nem para perdoá-los por não saberem o que fazem, porque já sabem o que fizeram e já viram que deu errado.

Subindo
O saldo comercial é positivo e está subindo. O superávit nos sete primeiros meses do ano alcançou US$ 4,6 bilhões. Mas está sendo construído em consequência da forte queda do consumo. As exportações nesse período recuaram 15,5%, mas as importações caíram ainda mais: 19,5%. A derrubada dos preços das commodities mostra impacto nas vendas de produtos básicos: queda de 21,7%. A de industrializados foi de 8,5%.

O Estado de S.Paulo

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Risco alto e controlado

Cristian Klein – 04/08/2015

No delicado equilíbrio político que sustenta o governo, o fator mais desestabilizador não é o presidente da Câmara dos Deputados. Eduardo Cunha atrapalha, vai vender caro (como sempre) qualquer legislação de interesse do Planalto, mas não representa o maior risco para a presidente Dilma Rousseff. A maior ameaça vem das ruas.

E para azar do governo e dos petistas, as manifestações marcadas para dia 16 encontram o mesmo tipo de “aquecimento” dos protestos de 15 de março, que reuniram cerca de 1,7 milhão de pessoas pelo país.

Uma semana antes, numa homenagem ao Dia da Mulher, o pronunciamento de Dilma em cadeia nacional de rádio e TV fora retaliado por intensos panelaços em diversas capitais. Agora, a mobilização será precedida por outra fala, que pode agitar os humores da opinião pública quando a presidente aparecer no programa partidário do PT, nesta quinta-feira. A propaganda petista será veiculada três dias depois da prisão, ontem, do ex-presidente do partido, José Dirceu.

JD é acusado de estender o mensalão – pelo qual ainda cumpria pena em regime domiciliar – para o esquema de corrupção na Petrobras, investigado na Operação Lava-Jato. Dirceu preso pode ser considerado “mais do mesmo”, como esperam os petistas, ou um elemento a reavivar a indignação popular, como anseiam os oposicionistas.

Os protestos do dia 16 serão uma prova de fogo para Dilma e os movimentos que se organizam nas redes sociais contra ela e o PT. Até o momento, as ruas deram sinalizações contraditórias, ou pelo menos insuficientes, sobre o grau de insatisfação do brasileiro. A primeira manifestação foi gigantesca. A segunda, em 12 de abril, mobilizou cerca de um terço do protesto anterior. É o terceiro ponto de observação que dirá se Dilma continua sob pressão das ruas ou se o bloco dos (mais) descontentes se dispersou.

Em 5 de maio, o programa partidário do PT escondeu Dilma, mas mostrou o ex-presidente Lula e o resultado foi semelhante ao do Dia da Mulher – panelaços não só pelas capitais, mas pelas cidades do interior. Diferentemente da primeira vez, porém, não havia a associação entre caçarolas e convocação de protesto – conjunção que se repetirá agora.

Essa combinação parece ser uma das características favoráveis à ação coletiva anti-Dilma. Por outro lado, a conjuntura política não é a mesma de meses atrás.

Com o refluxo do segundo protesto, a oposição partidária, PSDB à frente, se aproximou da oposição das ruas, o que quebra seu caráter supostamente autônomo, espontâneo. Como lembrou a cientista política americana Kathryn Hochstetler, em entrevista ao Valor na sexta-feira, essa partidarização é um dos maiores equívocos que a mobilização de rua contra Dilma pode cometer. Tende a reduzir o escopo dos protestos ao se identificar com uma das partes interessadas, em vez de criar coalizões suprapartidárias de descontentamento. O efeito pode ser até o contrário, ao amalgamar, em contraprotestos, grupos ligados ao governo. É exatamente o cenário que está se desenhando, já que PT, CUT e movimentos sociais como o MTST resolveram convocar manifestações de apoio à Dilma, em resposta aos chamados para o domingo, 16.

Para os defensores do governo – ou contrários ao “golpe” – a mobilização pode ser igualmente pouco inteligente. Em março, além dos panelaços, os protestos bem-sucedidos contra Dilma foram esquentados pela ida às ruas dos apoiadores da presidente, dois dias antes, numa sexta-feira, reforçando o clima de Fla x Flu das eleições do ano passado.

Seja como for, os dilmistas buscam provocar um efeito dissuasório, contra as tentativas de impeachment em curso.

Ao que parece, esse risco de polarização e, sua contraface, a dissipação do movimento das ruas já foram contabilizados pelos atores políticos – incluindo o empresariado.

Com a crise político-econômica aguda, evitar a perda do grau de investimento passou a fazer parte do topo das prioridades da agenda do governo e de boa parte dos interesses ligados à oposição partidária.

Se não for por seu próprio esvaziamento, as ruas precisam ser domadas, controladas, sob pena de aprofundar ainda mais a recuperação econômica.

Esse é o principal entrave à aliança entre o Congresso e as manifestações de massa, que poderia sacramentar o fim precoce do mandato de Dilma.

A classe política – em conversação contínua com o poder econômico – está reticente. O PSDB dá uma no cravo e outra na ferradura. Anuncia adesão aos protestos, mas recusa-se a incendiá-los. O senador Aécio Neves, presidente do partido e adversário à reeleição de Dilma, disse que “não comemora nem lamenta” a prisão de Dirceu. Preferiu louvar o “pleno funcionamento das instituições”.

O longo tempo que separa Dilma do fim do mandato – recém-legitimado – abre espaço para a cautela, dadas as incertezas e ressignificações em jogo: o quê (afastamento constitucional ou golpe), quando (antes ou depois do meio do mandato), como (impeachment ou renúncia), porque (pedaladas fiscais, dinheiro sujo de campanha ou envolvimento direto em corrupção – o tiro de misericórdia ainda não encontrado) e quem assumiria (se Michel Temer, Aécio ou um novo eleito).

Outras questões sobre a mesa: Eduardo Cunha e Renan Calheiros, ambos acusados na Lava-Jato, têm condições de liderar o processo no Congresso? À oposição interessa chegar ao poder em meio a uma crise e logo se tornar vidraça?

Tudo somado, ao delicado equilíbrio de sustentação do governo por sua base aliada corresponde uma cuidadosa aproximação da oposição partidária com a das ruas. Ambos tentam manejá-las.

Entre os principais grupos que comandam as manifestações, o PSDB elegeu o mais moderado, o Vem Pra Rua, seu interlocutor preferencial. O movimento ganhou perfil de “protesto institucionalizado” (vários grupos em torno de uma Aliança), organizado (pelas redes sociais), moderado (com articulação no Congresso) e ordeiro (leva até seguranças para manifestação).

Resta saber se a insatisfação pode ser controlada em fogo brando.

Valor Econômico

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Mercosul e Aliança do Pacífico podem unir o hemisfério?

BARBARA KOTSCHWAR E NICOLAS ALBERTONI

Os dois principais blocos econômicos da AméricaLatina atualmente são o Mercosul e a Aliança do Pacífico (AP). O primeiro é uma união aduaneira fundada por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai em 1991, à qual se uniu a Venezuela em 2012.A AP, bem mais jovem, criada inicialmenteem 2011, reúne as economias de Chile, Colômbia, México e Peru por meio de acordo de livre comércio, assim como a eliminação de exigência de visto para cidadãos do bloco, políticas comuns de agilização comercial em mercados externos e um compromisso com a abertura comercial. O acordo de livre comércio entrou em vigor em 20 de julho de 2015.

A economia do Mercosul é mais do que a da Aliança do Pacífico: 55% comparados aos 37% do PIB da América Latina e o Caribe. Abriga ainda 47% da população da região. Na área comercial, porém, os números daAPsuperam os do bloco vizinho, com 50% das exportações da região, frente a 37% do Mercosul. Isso se deve sobretudo às diferenças nas políticas comerciais e de investimentos. A AP está comprometida com a abertura comercial e de investimentos, e o objetivo do bloco é fortalecer o comércio regional, expandindo seu alcance aos dinâmicos mercados asiáticos.

Em sua 10ª reunião de cúpula, realizada em Paracas, no Peru, entre os dias1 a3 de julho deste ano,a APreiterou sua intenção de convergir com o Mercosul. O Chile vem encabeçando esta iniciativa desde do ano passado,com o ministro das RelaçõesExteriores,Heraldo Munoz, classificando o esforçocomo uma “necessidade” para “derrubar a parede invisível que separa os países(da AméricaLatina) do Pacífico e Atlântico”.

A presidente Michele Bachelet disse que este é “um momento histórico” para iniciar o processo de limitar esses dois blocos.

O quão invisível é a parede que separa os dois blocos?

Mais importante: o quão difícil será superá-la?

A maioria dos indicadores econômicos (e políticos) revelam uma região profundamente dividida – não por blocos, mas por orientações econômica e política.

À exceção do Uruguai, os dados quemedemas políticas associadas ao comércio e aos regimes de investimento colocam claramente a Aliança do Pacífico numa posição regional “mais aberta” ao passo que, inversamente, o Mercosul se situa na ponta “mais fechada.”

Os países do Mercosul também possuem tarifas significativamente mais altas e mais barreiras não tarifárias.

Além disso, assinaram menos acordos de livre comércio com os países da AP.

Considerando que os países latino-americanos nos dois blocos estão tão distantes uns dos outros em termos de comércio e de políticas de investimento, mesmo que seja vantajosa a convergência desses dois polos, ela seria possível?

Os diplomatas do setor de comércio estão classificando as reuniões entre APe Mercosul como “um encontro inteligente” A Aliança do Pacífico já está bem avançada: implementando seu acordo comercial, definindo o papel de seus 33 observadores, e avaliando como alcançar ametade fortalecimento do valor das cadeias regionais para melhor se integrar ao mercado da Ásia do Leste. Em meio a esses desafios administrativos e logísticos, convergir com o Mercosul – uma agenda que vai além de comércio e investimentos – podería parecer uma distração.

Uma razão para o interesse do Chile nos laços comerciais que unem as duas regiões: cerca de 4% das exportações daAPtêm como destino outros países da AP, enquanto 4,6% vão para nações do Mercosul.

Embora não seja grande em relação a outros destinos de investimentos, a AP e o Mercosul investem consideravelmente umna economia do outro.Eos países daAPinvestem mais no Mercosul do que o contrário.

Os investidores são atraídos à Aliança do Pacífico em grande medida porque e o bloco oferece abertura para comércio e investimento e estabilidade econômica.

Embora a AP quase rivalize com o Mercosul em tamanho de mercado, a promessa de acesso neste mercado unificado, caso a AP consiga gerar uma maior integração com o Mercosul, poderia ser um estímulo para membros menores da AP.

As nações da América Latina repartem um número comum de desafios, alguns dos quais poderiam ser resolvidos com união. Em maior ou menor proporção, todos sofrem com uma infraestrutura insuficiente.

Desenvolver a infraestrutura regional poderia ajudar os exportadores a vender seus produtos para o resto do mundo e atrair investidores à região.

Por outrolado, agora queo presidenteamericano, Barack Obama, conseguiu aprovar o fast-track, autorização para negociar acordos comerciais, a possibilidade de acordos megarregionais por meio da Parceria Transpacífica (TPP, na sigla em inglês) e da Parceria Transpacífica de Comércio e Investimento (TTIP) se tomam mais viáveis. Isso terá consequências para sócios e não sócios dos blocos. Embora os membros da AP (à exceção da Colômbia) participem das negociações do TPP, ao contrário dos membros do Mercosul.

Uma abordagem regional comum para facilitar o comércio, reduzindo os custos de se fazer negócio, poderia ser um estímulo a investidores, estrangeiros e domésticos. Mas isso exigirá dos países do Mercosul mudar suas políticas – reduzindo seu protecionismo e estabelecendo padrões mais amistosos aos negócios.

Talvez uma improvável convergência AP-Mercosul possa eventualmente fazer crescer a participação da América Latina nas cadeias globais de valores. Uma dessas áreas éo desencontro típicodaregião entre habilidades edemandas econômicas globais, aomesmo tempo em que os índices de desemprego juvenil na região estão alcançando patamares alarmantes. A AP está adotando medidas construtivas para permitir uma maior mobilidade no mercado de trabalho. Por este caminho, expandir as oportunidades de trabalho a mercados maiores, mediante acordos com o Mercosul, poderia representar uma solução vencedora.

Barbara Kotschwar e Nicolas Albertoni são articulistas do LatinaAmericaGoesGlobal.org

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Ásia, miragens e milagres

Luiz Gonzaga Belluzzo – 04/08/2015

Publicado na “Folha de São Paulo”, na edição de domingo (2 de agosto de 2015), o artigo de Samuel Pessoa sobre a experiência asiática suscitou minhas dúvidas e discordâncias.

Volto a 1993, ano da publicação pelo Banco Mundial do estudo “The East Asia Miracle”. Ao investigar o desempenho das economias asiáticas os economistas do banco escreveram:

“Nós sustentamos (neste estudo) que as Economias de Alto Crescimento da Ásia criaram condições e desafios que combinam a concorrência com os benefícios da cooperação entre as empresas e entre o governo e o setor privado. Tais condições vão desde simples normas de alocação de recursos não baseadas no mercado, como é o caso do acesso facilitado ao crédito para os exportadores, até a complexa coordenação do investimento privado, no Japão e na Coreia, executada pelos conselhos formados por empresários e representantes do governo. A característica central de tais ‘concursos’ é que o governo distribui prêmios – acesso ao crédito ou a divisas – sob critérios de avaliação de desempenho”.

O êxito do Japão e dos tigres asiáticos, como Coreia e Taiwan, não pode ser explicado apenas pelas “virtudes econômicas” dos seus modelos. A geopolítica intrometeu-se. A revolução chinesa de 1949 e a guerra da Coreia, travada entre 1950 e 1953, foram cruciais: ocupado pelas forças do general Douglas MacArthur e ameaçado de “pasteurização”, o Japão foi estrategicamente desobrigado de desmontar práticas e instituições que marcaram o desenvolvimento de sua economia, desde a revolução Meiji, na segunda metade do século XIX.

Os Estados Unidos aceitaram os modos asiáticos de impulsionar o crescimento. Modos que contemplavam políticas industriais “protecionistas” e de fortes incentivos às exportações. A tolerância americana foi ampla e irrestrita. Incluía não só a abertura do seu mercado para a invasão dos produtos japoneses – mais tarde coreanos e taiwaneses – como também admitia o regime autoritário de Park Chung Hee na Coreia.

A investigação sobre o desenvolvimento dos países asiáticos deu origem a uma volumosa bibliografia cuja estante não pode, nem deve, ser adornada pela etiqueta da oposição Estado x Mercado. Essa etiqueta binária oculta a complexidade das realidades asiáticas. Não pretendo pontificar a respeito de tais realidades, como o fazem os físicos e engenheiros da sociedade. Mas arrisco algumas sugestões. Julgo dignas de consideração:

1- a natureza e relevância da intervenção do Estado, particularmente das políticas industriais e de direcionamento do crédito;

2- a importância dos acordos implícitos e das relações de “cooperação” e “reciprocidade” entre os agentes relevantes;

3- a subordinação das políticas macroeconômicas ao arranjo autoritário-burocrático comprometido com a incorporação de novos setores “competitivos” à estrutura produtiva;

4- ajustamento da matriz educacional às exigências do crescimento acelerado e do avanço tecnológico;

5- a forma da inserção internacional.

Nesta “organização capitalista” prevaleciam os nexos “cooperativos” e de reciprocidade nas relações Estado-empresas, nas negociações entre os grandes conglomerados e seus fornecedores, na íntima articulação entre os bancos (em sua maioria estatais em Taiwan e na Coreia) e a grande empresa, no provimento de mão de obra capacitada e, finalmente, na “administração estratégica” do comércio exterior e do investimento estrangeiro.

O economista Ajit Singh, em seus trabalhos sobre o desenvolvimento da Ásia, não hesitou em escolher, como fator crucial do sucesso do “catching up”, a capacidade revelada pelas economias asiáticas de transformar continuamente investimentos em lucros (poupança das empresas) e os lucros em investimento, o investimento em ganhos de produtividade durante um longo período, sem que se insinuassem indícios mais sérios de fragilidade financeira. A isto o economista japonês Michio Morishima chamou da “combinação ótima” entre o máximo de competitividade e o máximo de cooperação e planejamento.

A China replicou à sua moda as experiências do Japão, da Coreia, de Taiwan e de Cingapura e iniciou sua escalada nos mercados mundiais tornando-se a maior exportadora de manufaturas do planeta, desde o “low end” dos têxteis, vestuário e brinquedos até o “high end” da eletrônica de consumo, microprocessadores, bens de capital, robótica e outros componentes de informática e microeletrônica.

É impróprio, para não dizer empobrecedor, apontar o dedo para causas singulares do desempenho das economias asiáticas: a “educação”, “a taxa de poupança” ou a “estabilidade macroeconômica”. No caso da Coreia, por exemplo, a taxa média de inflação na década de 60 foi de 17,4% ao ano, subindo para 19,8% nos anos 70. (Essa é uma constatação histórica e não uma defesa de regimes inflacionários). É vasta a literatura a respeito das políticas de estabilização dos países asiáticos, sempre administradas com múltiplos instrumentos e com o cuidado de não ferir a taxa de investimento e a competitividade das exportações.

A propósito da “estabilidade macroeconômica”: até a eclosão da crise no segundo semestre de 1997, a resistência das economias asiáticas aos choques externos deve ser atribuída, em grande parte, à “repressão” financeira e aos controles estritos exercidos sobre os mercados cambiais. As operações cambiais estavam praticamente restritas à compra e venda de divisas para saldar obrigações nascidas da balança de transações correntes. Os governos exerciam controles rigorosos sobre a conta de capitais.

O estudo do Banco Mundial foi escrito na “fase de aquecimento” do ciclo de expansão comandado por uma imprudente “liberalização financeira” que culminou na crise cambial e monetária do final de 1997. Tailândia, Coreia, Malásia juntaram a imprudência financeira ao vigor da acumulação de capital e de incorporação do progresso técnico para aumentar a sua participação nos mercados mais dinâmicos e “competitivos” da economia mundial. Neste período, a estagnação japonesa já exibia as consequências da “descompressão” financeira que levou ao colapso dos preços dos imóveis e da bolsa de Tóquio no início dos 90. Não demorou o estouro da outra bolha asiática insuflada por crédito externo.

Valor Econômico

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Incentivos perversos

Hélio Schwartsman – 04/08/2015

Por dever profissional e temperamento, sempre achei que é preciso considerar seriamente explicações das quais discordo, mesmo que venham de governos impopulares, religiosos, suspeitos de corrupção etc. No caso de José Dirceu, minha confiança nesse princípio se manteve até durante o processo do mensalão. Ela só foi abalada com a revelação de que a consultoria do ex-ministro continuou a receber megapagamentos de grandes empresas mesmo enquanto ele cumpria pena na Papuda.

Não é, porém, a situação de Dirceu que eu queria comentar hoje, mas uma discussão teórica à qual economistas não dão muita publicidade: a corrupção favorece o crescimento econômico? A resposta, como o leitor já deve ter intuído, é “depende”.

Não é difícil ver como o desvio de verbas amplia a ineficiência do setor público e a incerteza no setor privado, produzindo resultados econômicos piores do que seriam sem corrupção. Mas, questões morais à parte, alguns autores sustentam que, em certas situações, nas quais travas burocráticas ao desenvolvimento são tamanhas, a corrupção se mostra a segunda melhor opção para fazer com que negócios se materializem.

Num interessante estudo de 2010, Jac Heckelman e Benjamin Powell compararam níveis de desenvolvimento institucional, corrupção e crescimento de vários países e concluíram que as coisas são de fato complexas. Ainda que, de modo geral, a corrupção piore o desempenho, ela pode trazer resultados benéficos, especialmente quando as instituições econômicas do país são ruins.

Como questões morais existem e nem o mais doidivanas dos economistas recomenda que um país abrace a corrupção para crescer mais, a lição a tirar é que não basta combater os malfeitos. É preciso também reformar as instituições para que elas se tornem menos sensíveis a incentivos perversos. Nisso, infelizmente, o Brasil não tem avançado.

Folha de S.Paulo

Redação On agosto - 4 - 2015
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