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Sexta-feira, 19 de Julho de 2019






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País precisa dobrar, em 4 anos, o investimento em inovação, diz Finep

Para fazer “cócegas” na taxa de investimento, o volume de recursos aplicado pelo Brasil em inovação tem de dobrar nos próximos quatro anos, afirma Glauco Arbix, presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) desde 2011.

Para ele, o gasto público nessa área ­ sem considerar a participação do setor empresarial ­ teria de passar dos R$ 25 bilhões aplicados entre 2011 e 2014 para algo próximo de R$ 50 bilhões neste quadriênio para ajudar a taxa de investimento do país sair do atual patamar desconfortável, de cerca de 17% do Produto Interno Bruto (PIB).

Paciência e continuidade, para Arbix, são as palavras­chave de qualquer política de pesquisa e desenvolvimento. Por isso, mesmo diante do ajuste fiscal que está sendo executado pela nova equipe econômica, o sociólogo defende que o financiamento e a subvenção ao desenvolvimento de novas tecnologias ­ atualmente atribuição quase exclusiva da Finep, afirma ele ­ sejam preservados e aponta este como o melhor caminho para a recuperação da indústria nacional.

Nesse sentido, a agência de inovação quer se tornar uma instituição financeira de fato, para ampliar suas possibilidades de financiamento. A seguir, trechos da entrevista.

Valor: A Finep dobrou os dispêndios com inovação no último quadriênio. A taxa de investimento, na contramão, está no menor patamar desde 2009,próximo de 17% do PIB. Por que o descompasso?

Glauco Arbix: Porque somos ainda muito pequenos. O Brasil investe pouco em inovação ­ tanto o setor público quanto o privado, seja em volume ou em porcentagem do faturamento das empresas ou do PIB. O investimento está crescendo, houve mudanças significativas nos últimos 15 anos e, de forma mais acelerada, nos últimos cinco. No biênio 2013­2014, contratamos R$ 13,5 bilhões. Entre 2011 e 2012, foram R$ 4,7 bilhões, com resultados ainda piores nos biênios anteriores.

Estamos falando de R$ 13 bilhões e de um PIB de R$ 3,5 trilhões. Mas esse é o objetivo que a gente persegue. Como a agendachave da economia brasileira ­ a questão da produtividade baixa ­ é impactada de maneira mais rápida pelo desenvolvimento tecnológico, temos que perseguir isso de maneira muito obstinada.

O setor público investe hoje cerca de R$ 25 bilhões em P&D [pesquisa e desenvolvimento]; as empresas, um pouco menos. Para fazer cócegas no PIB, esse número precisa dobrar: o setor público precisa colocar R$ 50 bilhões e as empresas, outros R$ 50 bilhões. As estatísticas internacionais falam que cada dólar do setor público aplicado em P&D alavanca outro dólar no setor privado.
Valor: Essa relação tem se repetido também no Brasil?

Arbix: Sim. Na verdade, se você trabalhar com os indicadores da Finep e do BNDES ­ onde a participação dos desembolsos com inovação é pequena se comparada ao total ­ vai ver que esse retorno do investimento público é maior do que um para um aqui no Brasil. Nós conseguimos alavancar mais. É só ver nossas contrapartidas, seja no crédito, na subvenção econômica ou nos projetos cooperativos. O setor público não investe em inovação só para mitigar risco, mas porque ela é a mais virtuosa no que se refere à alavancagem [dos investimentos] do setor privado. Quando se empresta recursos para a compra de um caminhão ou de um utilitário qualquer, a contrapartida é quase zero. Claro que ele tem impacto na gestão da empresa, na redução de custos, mas acaba em três, quatro meses, quebra. Esse tipo de investimento está dentro do que a empresa faria normalmente. No caso da inovação, não é assim, porque o risco é alto e o resultado é incerto.

Valor: O cenário de restrição fiscal desenhado para os próximos anos não coloca em risco a meta de dobrar os investimentos?

Arbix: Nós precisamos investir. O Brasil tem que persistir na política, tem que ampliar o investimento em ciência e tecnologia, assim como em educação, e dar as bases para que os ajustes, que são necessários, sejam seletivos. Estamos falando de poucos recursos, se compararmos com o Orçamento nacional. A gente não gostaria de frustrar a expectativa de uma parcela do empresariado que, a duras penas, passou a investir em inovação e desenvolvimento. Fundamentar uma política de P&D é ter paciência e persistência no investimento. Se interrompermos, vamos colher os estragos por dez anos. É diferente de interromper a construção de uma estrada, de uma ponte, que podem ser retomadas depois de dois anos. O governo da presidenta Dilma sempre acreditou que a inovação é peça­chave no plano de desenvolvimento econômico sustentável de longo prazo. Prova disso foi o lançamento do Plano Inova Empresa, que teve demanda inicial de R$ 98,7 bilhões, frente a um orçamento inédito de R$ 32,9 bi. O próprio ministro da Fazenda, Joaquim Levy, citou em seu discurso inaugural que a concorrência, o empreendedorismo e a inovação serão indispensáveis para o crescimento da economia brasileira, o que reforça o alinhamento com as propostas da Finep.

Valor: A atividade está praticamente estagnada. Ainda assim as empresas mantêm o apetite pelo investimento em inovação?

Arbix: A demanda é forte ­ e essa é uma novidade altamente positiva. Há cinco, dez anos, o primeiro pigarro na economia mundial fazia com que as empresas brasileiras guardassem na gaveta seus projetos de inovação. Em meio às dificuldades grandes da crise econômica, uma parte crescente das empresas continua procurando a gente e contraindo empréstimos. A Finep deve ter fechado o ano colocando entre R$ 11 bilhões e R$ 12 bilhões na economia, com mais de R$ 8 bilhões só de contratações de crédito e com uma carteira de projetos já avaliados de praticamente R$ 7 bilhões.

Valor: A Finep tem expressado a intenção de se tornar uma instituição financeira formal.

Arbix: Essa questão está interligada às anteriores. De fato, já somos uma instituição financeira. Em 2014, colocamos mais de R$ 12 bilhões na economia. O que não somos é supervisionados e fiscalizados pelo Banco Central, porque o Conselho Monetário Nacional ainda não nos reconheceu, mas isso é uma questão de tempo. Nos últimos quatro anos, trabalhamos para adaptar todos os processos internos para que tivéssemos condições para isso. Como instituição financeira, podemos fazer captação, teremos mais liberdade para montar fundos de investimento, podemos trabalhar com instrumentos diferenciados. Nós gostaríamos de ter autonomia, porque o Brasil precisa massificar a inovação, é uma necessidade urgente. A indústria brasileira vive talvez um dos piores momentos das últimas décadas, não somente por conta do custo Brasil, mas porque está perdendo competitividade. A distância em relação à indústria mundial de ponta é muito grande ­ e está crescendo. Hoje, o financiamento de tecnologia pelos bancos de varejo, mesmo os públicos, é absolutamente marginal. Quem faz isso de forma intensa somos nós e um pedacinho do BNDES.

Valor: A inovação é então um caminho incontornável para a recuperação da indústria?

Arbix: Sem a menor dúvida. Ou a gente dá um choque de inovação, ou a gente vai ficar para trás. Por isso propomos a massificação do financiamento para algumas modalidades com um cartão comum, que deve ser chamado de “cartão inovação”, distribuído por todo o país. Em 2014, 62% das empresas que atendemos trabalharam pela primeira vez com a Finep. Isso é chave para a gente, porque não estamos fazendo mais com as mesmas empresas, estamos diversificando. Nos últimos anos conseguimos reduzir os prazos de análise dos projetos de 452 para 30 dias. Com o Finep 30 dias, tivemos uma redução de custo trabalhador/hora de R$ 4 milhões por ano. Criamos 86 indicadores, um sistema novo na área de informática, mudamos nossos processos. Se a economia para nós é grande, imagine para as empresas, que não precisam mais de departamentos inteiros para montar os projetos.

Valor: Hoje a Finep é financiada basicamente pelo Tesouro?

Arbix: Pelo Tesouro, via o PSI, e pelo FNDCP [Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], um fundo do qual somos gestores, que tem um orçamento que varia entre R$ 4 bilhões e R$ 5 bilhões por ano e que nos permite fazer subvenção econômica, projetos cooperativos e transferência de recursos para toda a infraestrutura científica no país. Essas são nossas duas grandes fontes, mas fizemos um trabalho forte nos últimos anos para atrair outros fundos. Hoje somos os principais gestores e agentes do Funttel [Fundo para o Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações], por exemplo, e conseguimos atrair recursos do Ministério da Saúde e do FAT.

Valor: Diante da disponibilidade ainda modesta de recursos, quais as áreas prioritárias?

Arbix: Nós fizemos sete vezes mais investimentos em saúde, que é uma área­chave, pelo impacto social, científico e tecnológico. Nossos investimentos [nesse setor] entre um biênio e outro passaram de cerca de R$ 300 milhões para R$ 2,680 bilhões. A área de saúde é a que mais inova no mundo, mas na Finep era a mais deprimida até nossa chegada. Ao aumentar o investimento em saúde, ao triplicar o investimento em energia, ou mesmo em petróleo e gás, estamos na verdade ajudando a sintonizar o investimento brasileiro em tecnologia com o investimento internacional. Essas são as áreas de fronteira, são aquelas que nós temos que perseguir. A única área que não cresceu, entre as mais importantes, foi a de metalurgia e transportes, o que está, de certa forma, de acordo com o comportamento da atividade.

Valor: A questão da escala também explica por que ainda não se veem resultados na área de saúde?

Arbix: Não necessariamente. Nós estamos fazendo investimentos pesados nessa área. A questão é que o desenvolvimento de inovações não se dá quando a empresa recebe os recursos. As farmacêuticas brasileiras passaram a ampliar seu apetite por tecnologia, algo que era muito restrito um tempo atrás. As maiores empresas do mundo, as “big pharma” ­ Glaxo, Merck, Novartis ­, investem até 27% do seu faturamento em P&D. Entre as brasileiras, as que mais investem colocam entre 6% e 6,5%. Há três, quatro anos, esse percentual era de 1%, 1,5%, e muito direcionado para o desenvolvimento de genéricos. Mas elas perceberam que, nesse mercado, ou você inova ou não vai ser nem um ‘player’ local. Nós e o BNDES estamos ajudando diretamente essas empresas, fornecendo financiamento, subvenção econômica. Um dos resultados que patrocinamos foi um medicamento de alta complexidade para o tratamento de câncer, desenvolvido pelo laboratório Libbs, que está sendo comercializado por um preço acessível e já está sendo compradopelo SUS. Se as empresas entregarem no prazo e com o preço e qualidade que queremos, o SUS e o Ministério da Saúde compram até R$ 8 bilhões por ano. Isso tem diminuído o risco e tem levado as empresas a inovar e a colher resultados. Mas leva tempo.

Valor: A falta de interação entre centros de pesquisa e o setor produtivo é apontada como um entrave para o desenvolvimento mais célere da inovação no Brasil. Como a Finep enxerga essa questão?

Arbix: Com o Inova Empresa, programa que criamos em 2013 e que conta com 12 projetos setoriais, atraímos 2.787 empresas e, junto com elas, 238 institutos de ciência e tecnologia. Ele já foi um sucesso sob esse ponto de vista. Mas demos um salto ainda maior com o Plataformas do Conhecimento, lançado recentemente. A ideia é colocar em contato empresas e universidades para que, juntas, elas possam desenvolver, a partir da demanda pública, da pesquisa básica até a inovação. A encomenda pode ser para o desenvolvimento, por exemplo, de uma vacina contra a dengue ou um anticorpo monoclonal para o tratamento de câncer. Mas não apenas na saúde ­ também na área de energia, de petróleo… Essa é uma modalidade muito pouco utilizada no Brasil e muito difundida fora. A ideia é fazer com que a inteligência das universidades e das empresas trabalhem juntas para atender à demanda pública. É um programa grande, que estamos formatando com o Ministério da Ciência e Tecnologia e que prevê financiamentos de longo prazo, por dez anos, com um volume de recursos acima de R$ 1 bilhão.

Valor: Está satisfeito com os resultados do último quadriênio?

Arbix: Mais do que satisfeito. Nós conseguimos ampliar o orçamento público da Finep em mais de quatro vezes em relação ao volume aplicado no biênio 2009­2010. Isso [o aumento dos repasses] é importante, porque significa que o recurso está sendo bem alocado. A discussão no Brasil, em geral, não é sobre a disponibilidade de recursos para investimento, mas à qualidade desse investimento. Se eu tiver que escolher entre direcionar recursos para comprar caminhão ou para desenvolver tecnologia, eu fico com a tecnologia, que usa mão de obra mais qualificada, um ferramental mais complexo. Tudo isso tem um impacto sobre a produtividade infinitamente maior do que a compra de bens mais simples, que muitas vezes nós acabamos financiando.

Fonte: Valor

Redação On janeiro - 30 - 2015
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