Sindicato Nacional da Indústria de
Trefilação e Laminação de Metais Ferrosos

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Sbado, 18 de Novembro de 2017






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Mercado exagera no otimismo, diz Mobius

Especialista em mercados emergentes, o gestor americano Mark Mobius, da Franklin Templeton, afirma que o otimismo do mercado financeiro com a possibilidade de mudança no governo pode ter sido exagerado.

Mobius acredita que o entusiasmo só vai perdurar se houver compromisso com reformas estruturais nas contas públicas.

*

Folha – Por que um eventual fim do governo Dilma leva os mercados a tanta euforia?

Mark Mobius – É uma chance de mudança na condução da economia. O atual entusiasmo em relação a uma potencial alteração no quadro político está provavelmente exagerado. Os investidores têm bastante dúvida se haverá de fato uma mudança no Brasil. E, se houver, se isso trará reformas realmente importantes. Os precedentes históricos do país não são bons, obviamente.

Do que dependerá a continuidade desse entusiasmo?

Dependerá de que quem estiver no comando se comprometa com mudanças na economia. De o [novo] governo instituir reformas na legislação trabalhista e simplificar o sistema tributário. Em outras palavras, serão necessárias reformas importantes para tornar as pessoas mais dispostas a investir no país.

Como proceder diante das constantes mudanças no quadro e no noticiário?

A melhor estratégia de investimento é comprar quando as condições são incertas e negativas, e quando os demais estão segurando e com medo de comprar. Por essa razão, faz mais sentido esperar por momentos de reversão desse otimismo todo. Se olhar as perspectivas de longo prazo, digamos de três para cinco anos, então essa volatilidade de curto prazo deixa de ser tão importante.

Por que os estrangeiros parecem menos pessimistas que os brasileiros?

Os investidores locais parecem mesmo mais pessimistas. Todos os dias os brasileiros veem mais impostos, inflação elevada, moeda fraca, notícias sobre corrupção e paralisia política. Os estrangeiros não experimentam essas coisas em sua vida diária. Por esse motivo, são mais capazes, nesse momento, de ter uma visão de mais longo prazo.

A crise brasileira pode contaminar outros emergentes?

A recessão brasileira já afetou os países emergentes que exportam para o Brasil. A boa notícia é que, com a desvalorização do real, esses países são capazes de importar produtos brasileiros a preços mais baixos. O panorama não é tão ruim quanto parece.

O que podemos esperar dos preços das commodities?

A recuperação nos preços das commodities não chega a ser surpreendente, se levarmos em consideração o grau excessivo em que os preços foram empurrados para baixo. É claro que essa recuperação dos preços não será contínua. Veremos reversões de tendência enquanto uma nova base para os preços não se consolidar.

Aprendemos que os preços das commodities não são mais baseados apenas na oferta e demanda real, mas no sentimento dos investidores e no comportamento dos mercados de derivativo [onde são feitas operações de proteção contra oscilações]. Portanto, os preços serão ainda muito voláteis.

O quanto é consequência da desaceleração na China?

As perspectivas de crescimento chinês ainda são muito elevadas. Precisamos lembrar que, mesmo com a desaceleração, a quantidade de dinheiro que a China gera é a maior de todos os tempos.

Em 2010, a economia chinesa crescia a 10% do PIB, mas gerava menos dinheiro do que hoje com uma expansão entre 6% e 7%. É verdade que a China está mudando a matriz das exportações para o consumo interno, portanto não deverá importar produtos in natura como no passado. Mesmo assim, ainda precisarão de uma quantidade enorme desses produtos.

Portanto, o Brasil e outros emergentes ainda terão na China um mercado enorme para produtos e serviços.

As Bolsas chinesas se tornaram um termômetro do desempenho da economia?

A derrocada no mercado acionário chinês, de fato, refletiu a desaceleração na economia. Mas essa conexão não é ainda tão boa. A bolha já explodiu. As turbulências foram causadas pelos esforços do governo para impulsionar o mercado, mantendo a Bolsa como opção para empresas, especialmente estatais, levantarem dinheiro e pagar dívidas. Quando todos correram contra a Bolsa, o governo não conseguiu arrefecer a especulação e impedir a derrocada resultante.

Há riscos potenciais subestimados, mas que podem afetar a economia global e a brasileira em particular?

Os mercados emergentes serão impactados pelos mesmos riscos potenciais que vemos nos países desenvolvidos. Epidemias globais, os juros maiores nos EUA, além de guerras e o terrorismo.

Folha de S.Paulo – 24/03/2016

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Prévia do IPCA reforça sinais da recessão sobre preços de serviços

A surpresa favorável em relação ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15) de março, que subiu 0,43% – abaixo do piso das expectativas do mercado – foi concentrada na descompressão mais forte dos alimentos, mas também embutiu uma dinâmica mais comportada dos preços livres, em especial dos serviços.

O dado divulgado pelo IBGE provocou revisões nas estimativas de curto prazo e, para economistas, sugere que a desinflação na esteira da fraqueza da atividade pode ser mais significativa do que a atualmente prevista.

A prévia da inflação deste mês desacelerou quase um ponto (0,99 ponto percentual) ante fevereiro, puxada principalmente pela menor alta (de 1,92% em janeiro para 0,77% em fevereiro) na parte de alimentação e bebidas, onde foi forte a influência de alimentos in natura.

Além disso, o IPCA-15 mostrou reforço da dupla tendência já vista no IPCA do mês anterior: reajustes menos intensos em serviços, deflação da energia elétrica (-2,87%) e, na ponta oposta, alta de itens influenciados pela desvalorização do real – a inflação de bens comercializáveis no primeiro trimestre ficou em 2,94%.

Dos três movimentos, o último pode perder fôlego em breve (dado o movimento mais recente do câmbio, de valorização do real) e parar de empurrar para cima os preços. Ao mesmo tempo, a recessão continuará a fazer o trabalho de conter reajustes em alguns segmentos de serviços.

De fevereiro para março, a inflação do conjunto que reúne preços como aluguel, empregada doméstica e cabeleireiro diminuiu de 1,26% para 0,29%, com ajuda da deflação de 10,79% das passagens aéreas e do arrefecimento sazonal dos reajustes de mensalidades escolares.

Para expurgar a volatilidade dos bilhetes aéreos e a sazonalidade de educação, Márcio Milan, da Tendências Consultoria, excluiu os dois itens do cálculo da inflação de serviços. Ainda assim, o índice desacelerou bastante entre a prévia de fevereiro e a atual, de 0,83% para 0,38%. Em 12 meses, esse grupo aumentou 7,8% em março, ante 8,16% em fevereiro. “É muito factível esperar que os preços de serviços apresentem uma trajetória mais condizente com o ajuste do mercado de trabalho”, afirmou Milan.

A depender do IPCA fechado deste mês e de abril, a consultoria pode revisar para baixo sua estimativa para o avanço dos preços de serviços em 2016, atualmente em 7,2%. A previsão para a alta do indicador oficial de inflação no ano segue em 7%.

A inflação elevada de 2015 (10,67%) e o reajuste de 11,6% do salário mínimo poderiam gerar uma indexação mais elevada. Não é o que está acontecendo, mas em alguns itens essa tendência (indexação mais contida) é bastante expressiva, como alimentação fora do domicílio.

Na média dos últimos três meses, os preços em restaurantes, lanchonetes, padarias etc. subiram 0,7% ao mês, bem abaixo do custo da alimentação em casa, que aumentou 1,85% ao mês. Historicamente, a dinâmica entre esses dois grupos é muito diferente. No ano passado, por exemplo, o grupo alimentação no domicílio subiu 1,24% em média nos primeiros três meses do ano e, fora de casa, 1%. É a queda na renda das famílias e a alta do desemprego que estão contendo reajustes em restaurantes e lanchonetes.

“Quando temos um choque de alimentos in natura, isso acaba afetando os preços de alimentação fora do domicílio, algo que não estamos vendo agora”, diz Leonardo Costa França, economista da Rosenberg Associados. Para França, a desaceleração de 1,08% para 0,44% desses preços na passagem mensal indica que o efeito da atividade sobre o setor é maior do que o do recente choque de custos.

Educação (7% em 2015 e 6,8% no acumulado do primeiro trimestre de cada ano) e serviços pessoais (2,5% para 2,2% na mesma comparação) também acumulam altas menores neste ano em relação aos primeiros três meses do ano passado, mas serviços de saúde (2,6% para 2,9%) e o grupo consertos e manutenção em domicílios (2,4% para 3,2%) mostram uma inflação maior neste começo de ano.

Não fosse a inflação de dois dígitos de 2015, o impacto da recessão sobre os preços de serviços, que já está em curso, seria ainda maior, avalia Danilo Passos, da Santander Asset Management. Mesmo assim, afirma, alguns itens dentro desse grupo subiram menos que o esperado no IPCA-15 de março, como aluguel, que cedeu de 0,67% para 0,18% entre fevereiro e a medição atual, e empregado doméstico (0,65% para 0,72%).

Para Passos, a prévia da inflação deste mês foi favorável não só devido ao comportamento dos serviços, mas também ao índice de difusão e aos núcleos. A proporção de preços que subiram no mês caiu bastante entre fevereiro e março, de 77,5% para 71,5%. Já a média das três medidas usadas para expurgar ou diminuir o impacto de itens voláteis sobre a inflação ficou em 0,49%, também abaixo da alta de 1,04% de fevereiro.

Os bons sinais da inflação de serviços e de preços monitorados no primeiro trimestre, reforçados pelo IPCA-15 de março, associados ao movimento mais recente do dólar no mercado doméstico podem abrir espaço para novas revisões, para baixo, nas projeções para o IPCA do ano. No Focus, ela já caiu por duas semanas seguidas.

Após a divulgação da prévia deste mês, Passos reviu ligeiramente para baixo sua previsão para a alta do IPCA de março, de 0,49% para 0,46%. “Não acho que a desaceleração provocada pela atividade será suficiente para o IPCA encerrar 2016 abaixo de 7%, mas ela vai despertar no mercado a dúvida se a desinflação pode ser maior”, disse.

Valor Econômico – 24/03/2016

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Governo oficializa um deficit de quase R$ 100 bilhões para este ano

O governo enviará ao Congresso nos próximos dias o projeto de lei que autoriza a redução da meta fiscal do ano para um deficit de R$ 96,65 bilhões, o equivalente a 1,55% do PIB.

Para chegar a esse número, o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, e sua equipe levaram em conta alguns gastos dos quais o governo não quer abrir mão, com o intuito de tentar reanimar a economia, como investimentos em saúde, educação e obras em andamento.

A meta fiscal de 2016, definida em lei, era de poupar R$ 24 bilhões para o pagamento de juros da dívida pública.

No início da gestão de Barbosa na Fazenda, decidiu-se abater R$ 84,2 bilhões dessa meta, e fechar o ano com um rombo de R$ 60,2 bilhões.

Diante de receitas minguadas e da urgência do governo em tentar entregar alguma esperança de melhora na economia, a equipe econômica de Dilma decidiu avançar nesse abatimento.

Com o projeto, o governo oficializa que 2016 será o terceiro ano consecutivo de deficit nas contas públicas, o que faz a dívida do governo crescer, assim como seus gastos com juros.

Enquanto a alteração da meta não for aprovada por deputados e senadores, o governo se propõe a um corte nas despesas de R$ 44,6 bilhões. Para fechar as contas formalmente, também conta com R$ 70 bilhões de receitas extraordinárias, como recriação da CPMF e repatriação de bens no exterior.

O governo terá outra conta cara para pagar, ao pactuar com governadores um esquema mais suave de pagamento da dívida dos Estados com a União, o que vai custar ao Tesouro, só neste ano, R$ 9,6 bilhões. Até 2018, a folga para os Estados será de R$ 45,5 bilhões.

Barbosa fechou acordo com governadores e com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB – RJ), para votar da próxima terça (29) o projeto que dá esse prazo adicional para Estados, de 20 anos.

Esse mesmo projeto fixa um teto para o gasto público, permite aumentar gastos em anos de baixo crescimento (abaixo de 1%) e cria uma nova ferramenta para que o Banco Central retire dinheiro da economia sem aumentar a dívida pública.

ESFORÇO

Segundo Nelson, o contingenciamento adicional anunciado no início desta semana é excessivo, ao reduzir as despesas do governo a um patamar compatível ao de 2010.

“É um grande esforço, que achamos que é excessivo, num momento em que a economia brasileira enfrenta, de retração, do nível de atividade e do nível de emprego. Neste momento, o governo tem que é que atuar para estabilizar o nível de atividade e de emprego.”

Uma vez aprovada pelo Congresso, a proposta prevê uma meta oficial de superavit de R$ 2,8 bilhões, com abatimentos na meta para cobrir os mais de R$ 70 bilhões em receitas frustradas pela crise econômica, e preservar investimentos na saúde (R$ 3 bilhões), obras prioritárias (R$ 9 bilhões), defesa (R$ 3,5 bilhões) e pagamento de fundo de exportação aos Estados (R$ 1,8 bilhão).

Folha de S.Paulo – 24/03/2016

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Um resultado quase igual ao do ano da despedalada

Que o governo central não faria superávit primário de R$ 24 bilhões neste ano ninguém duvidava. Mas o anúncio feito ontem pelo ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, tem potencial para deixar até os mais pessimistas com a evolução das contas públicas de cabelo em pé. Na terça, o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, já havia sinalizado que revisaria a meta para este ano, que era de R$ 24 bilhões para o governo central, com possibilidade de abatimentos de até R$ 84 bilhões.

Agora, o governo anunciou que vai mandar para o Congresso projeto de lei que reduz a meta para R$ 2,8 bilhões, com abatimento máximo de R$ 99,5 bilhões. Se aprovada essa revisão, o novo piso para as contas públicas é um rombo de R$ 96,7 bilhões, equivalente a cerca de 1,55% do Produto Interno Bruto (PIB). No ano passado, quando houve pagamento de R$ 70 bilhões em pedaladas, o resultado só foi um pouco pior, com déficit de R$ 111,2 bilhões.

Ou seja, a situação fiscal, em vez de melhorar, vai se agravar – até mais do que previam os economistas consultados pelo Prisma Fiscal, que calculam déficit de R$ 80 bilhões neste ano e de R$ 71 bilhões em 2017. O ministro Nelson Barbosa disse que essa é uma proposta de readequação fiscal e que é necessário ter uma meta “que estabilize a economia”, e não a empurre para baixo. Mas faltou explicar por que essa avaliação não foi feita na terça, quando o relatório de Avaliação de Receitas e Despesas indicou que haveria um decreto de contingenciamento até dia 30, de R$ 21 bilhões.

O “ajuste” gradual proposto por Barbosa vai colocar a dívida bruta nas alturas. Um especialista do setor privado traçou cenários para a evolução da dívida e mostra que, caso o déficit seja de 1,4% do PIB em 2016, com queda do produto de 3,5%, o endividamento, que era de 66,2% do PIB no ano passado, subirá para 74,5% neste ano. Se o afrouxamento fiscal no curto prazo for ainda maior, a dívida bruta sobe para 75,5% neste ano e 101% do PIB em 2019.

Na prática, Barbosa parece ter cedido aos apelos do PT e às críticas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Além de aumentar o déficit possível para esse ano, o ministro disse que vai pedir autorização para direcionar recursos a investimentos, além de ter acolhido os pedidos dos Estados para alongamento das dívidas. São medidas adotadas sem sucesso no passado, quando a confiança de empresários não estava nos menores níveis históricos e não havia uma crise política que torna impensáveis reformas de longo prazo. Não há argumentos fortes, a não ser a necessidade de recompor bases por um governo acuado pelo impeachment, que permitam acreditar que vai funcionar agora.

Com o anúncio, o contingenciamento, que ainda seria detalhado, foi abandonado em tempo recorde. Na divulgação do Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas do 1º bimestre, o governo mostrou que, para chegar na meta de R$ 24 bilhões, era preciso cortar mais R$ 21 bilhões em despesas discricionárias. Segundo o ministro, isso levaria a despesa que pode ser cortada pelo Executivo ao nível de 2010. Ontem, Barbosa deixou claro que pretende usar esses R$ 21 bilhões que seriam bloqueados para acelerar a recuperação da economia e do emprego.

Ainda assim, não escapou de críticas do ex-presidente Lula. Em evento em São Paulo, conforme relata o repórter Estevão Taiar, Lula criticou mais um corte ‘anunciado’ por Barbosa. “Quanto mais corte a gente tem, menos capacidade de investimento.”

Valor Econômico – 24/03/2016

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Erros cometidos durante boom das commodities pioram crise brasileira

A recessão profunda e as turbulências políticas que o Brasil atravessa podem até ter um tom familiar, dados os sucessivos períodos de instabilidade política e econômica na história do país. Esta, porém, não é uma crise igual às das gerações passadas.

Durante as décadas de 80 e 90, o Brasil, como muitas economias emergentes, sofreu regularmente o que os economistas chamam de “parada súbita” – uma interrupção repentina e generalizada dos fluxos de capital estrangeiro. Uma moeda sobrevalorizada e a inflação alta corroíam a competitividade e incentivavam o endividamento externo. O capital estrangeiro debandava, a moeda entrava em colapso e governos, bancos e empresas deixavam de pagar suas dívidas em moeda estrangeira.

Hoje, as coisas são muito diferentes. O câmbio no Brasil é flutuante. A inflação está em 10% ao ano e recuando. A maioria das dívidas é feita em moeda local. Os bancos estão saudáveis e as reservas em divisas estrangeiras são abundantes, somando US$ 370 bilhões.

Longe de uma parada súbita, a crise atual é consequência de anos de falta de investimento, protecionismo e excesso de regulação, problemas que foram atenuados por um boom de commodities que está agora se desfazendo.

A agitação política atual revolve em torno do escândalo de corrupção da Petrobras. Mas o verdadeiro escândalo é o pouco que o Brasil se beneficia de suas riquezas petrolíferas. Hoje, a renda per capita do Brasil, ajustada para refletir o poder de compra real das moedas, equivale a 27% da dos Estados Unidos – comparado com 30% em 2010 e 38% em 1980.

Ainda assim, embora a situação no Brasil seja particularmente grave, ela é semelhante à de muitas economias emergentes, como a Rússia e a África do Sul, que tiraram enorme proveito do boom das commodities da China. Muitos países copiaram o modelo chinês de uma economia dirigida pelo governo, mas não copiaram -fatalmente – o foco da China nos investimentos vultosos e nas exportações de bens manufaturados como motores da produtividade e do crescimento. Um estudo do Fundo Monetário Internacional que analisou 18 países, como Arábia Saudita e Equador, de 1998 a 2011 concluiu que em nenhum deles o crescimento da produtividade fora do setor de commodities acelerou durante o boom.

Os investimentos públicos e privados da China equivalem a 43% do produto interno bruto. Isso causa alguns problemas, como excesso de capacidade e endividamento; mas vem gerando um crescimento notável na produtividade. No Brasil, ao contrário, o investimento é muitíssimo inferior, 17% do PIB, menor até que em outros países da América do Sul, como Chile, Colômbia e México.

O investimento privado no Brasil sempre foi prejudicado por juros e inflação altos e voláteis. Durante a presidência de Fernando Henrique Cardoso, no fim dos anos 90 e início dos 2000, o câmbio flutuou, a inflação foi domada e o orçamento ficou sob controle. Suas políticas conservadoras foram mantidas durante o governo de Lula, eleito em 2002.

O Brasil, como muitos mercados emergentes, passou incólume pela crise financeira que atingiu os países ricos. Depois de encolher ligeiramente em 2009, a economia brasileira cresceu 7,5% em 2010, ajudada pela alta nos preços das commodities, a descoberta das grandes reservas marítimas de petróleo do Pré-Sal e uma onda keynesiana de gastos públicos e subsídios ao crédito. Naquele ano, o FMI não hesitou em estimar o crescimento potencial de longo prazo do Brasil em 4% ao ano.

Mas tanto o FMI quanto o próprio país equivocadamente consideraram o boom das commodities como algo sustentável. O Brasil parou de crescer em 2014, com a inflação e o desemprego crescentes sinalizando que sua economia tinha atingido os limites produtivos. “O sucesso macroeconômico cegou as pessoas para [as consequências da] ausência de reformas”, diz Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco. O sistema tributário era e continua sendo oneroso e absurdamente complexo. O crédito altamente subsidiado distorce a alocação de capital e enfraquece a política monetária.

O mais sério é que as abundantes receitas com commodities foram mal investidas. De 2000 a 2015, os gastos federais saltaram de 14% para 20% do PIB, observa Goldfajn, mas essa alta foi inteiramente para o consumo e a distribuição de renda.

Alguns desses gastos foram louváveis, como o programa Bolsa Família, que forneceu renda às famílias condicionada às crianças frequentarem a escola e serem vacinadas. Outros nem tanto. As propinas que os prestadores de serviço da Petrobras supostamente pagaram a políticos são apenas o exemplo mais proeminente do clientelismo endêmico do país. Um estudo de Francesco Caselli e Guy Michaels, da London School of Economics, concluiu que, em cidades que recebem grandes receitas provenientes da exploração de petróleo, as casas dos funcionários públicos aumentam de tamanho, mas as outras casas não.

Pouco desse dinheiro acabou sendo usado para melhorar a infraestrutura deploravelmente subdesenvolvida do Brasil, que deve ser posta à prova na Olimpíada do Rio de Janeiro. Os investimentos públicos estão pouco acima de 2% do PIB, sendo que a fatia do governo federal é de cerca de 1%. Os líderes chineses vêm se concentrando muito mais no crescimento que na redistribuição de renda, com os investimentos em infraestrutura local atingindo uma média de 6% do PIB. Hoje, a China tem 32 vezes mais quilômetros de estradas pavimentadas por quilômetro quadrado que o Brasil, segundo o McKinsey Global Institute, braço de pesquisa econômica da consultoria McKinsey. Essa disparidade é uma razão importante que explica por que a China está profundamente integrada às cadeias globais de suprimento e o Brasil, não. Outra razão são as barreiras brasileiras às importações. As exportações da China equivalem a 26% do seu PIB e as do Brasil, 13%, uma das menores entre as grandes economias. O Brasil tem quase o mesmo número de companhias exportadoras que a Noruega, apesar de possuir uma população quase 40 vezes maior, observa um estudo recente de economistas do FMI e do Banco Mundial.

O crescimento de longo prazo do Brasil está provavelmente pouco acima de 2% hoje. Monica de Bolle, economista da PUC do Rio de Janeiro, acredita que a inflação do Brasil pode chegar a 20% ao ano, à medida que o país a utiliza como uma espécie de imposto sobre os detentores de dívida pública. “O palco parece, então, preparado para uma reencenação do passado do Brasil”, diz ela. Essa ainda não é uma parada súbita como a dos velhos tempos. Mas uma crise não é menos dolorosa só porque se desenrola durante muitos anos e não de uma vez.

Valor Econômico – 24/03/2016

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Intervenção no câmbio

O Banco Central (BC) montou uma operação de guerra para evitar uma forte oscilação do dólar no pregão de hoje e usará todos instrumentos à disposição para intervir no mercado cambial. A autoridade monetária oferecerá US$ 3 bilhões em leilões de linha, 3 mil contratos para compra da divisa norte-americana no mercado futuro, que equivalem a
US$ 150 milhões, e outros 2 mil contratos de venda da moeda, que correspondem a US$ 100 milhões.

Analistas de mercado avaliam que a atuação do BC pode ter dois objetivos: evitar volatilidade maior no preço da divisa ou ajudar empresa ou instituição financeira com dificuldades para honrar os pagamentos em dólar. No pregão de ontem, a moeda norte-americana teve alta de 2,11%, cotada a R$ 3,677. A valorização foi influenciada pelas revelações de que a empreiteira Odebrecht mantinha um suposto esquema de pagamento de propina para políticos do governo e da oposição.

A possibilidade de deleção premiada de Marcelo Odebrecht também levou os analistas a temer uma demora maior para o fim da crise política, já que as revelações dele podem envolver políticos graúdos. Apesar de a aposta da maioria ser que o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff vai ocorrer, a dúvida sobre quanto tempo durará o processo aumentam a insegurança sobre o fim da crise econômica. As incertezas políticas levaram a Bolsa de Valores de São Paulo (BM&FBovespa) a terminar o pregão em queda de 2,59%, aos 49.690 pontos.

Volatilidade

Apesar de explicar os movimentos do BC no câmbio, o economista-chefe da corretora Nova Futura, Pedro Paulo Silveira, considera que a estratégia adotada pela autoridade monetária não é a mais adequada. Na opinião dele, o câmbio deveria flutuar naturalmente. O banco não deveria intervir, como fez no início da semana, temendo uma queda brusca do dólar, assim como deveria evitar segurar a cotação para que não exploda em meio a crise política.

Para José Márcio Camargo, economista-chefe da Opus Investimentos, a autoridade monetária pode ter montado a operação para socorrer alguma empresa ou instituição financeira com problemas. Ele ressaltou que a decisão do BC de diminuir a rolagem de swaps é acertada, mas deveria ser feita de maneira mais rápida.

Camargo ainda afirmou que a autoridade monetária pode estar interessada em evitar grandes oscilações da moeda para conter impactos inflacionários. “São muitas opções, mas manter o dólar valorizado pode não ser a melhor alternativa. O ajuste nas contas externas acontece também pela recessão profunda. Não está claro o que eles querem”, destacou.

Correio Braziliense – 24/03/2016

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Economia de amplo alcance

O debate econômico no Brasil não leva em consideração um conceito básico em economia: o de alocação de recursos, calculando os custos e oportunidade. “Isso me frustra muito”, afirma o economista Rodrigo Reis Soares, professor da Escola de Economia de São Paulo (Eesp-FGV). Especializado em microeconomia aplicada, Soares, de 44 anos, é elencado pelo site de divulgação da pesquisa em economia Repec (Research Papers in Economics) como o autor brasileiro dos artigos mais citados entre economistas.

Da demografia à criminalidade, da saúde ao impacto das instituições coloniais sobre o Brasil contemporâneo, são diversas as áreas de atuação do economista. Assim como as áreas de estudo, suas propostas também são amplas, como a legalização paulatina das drogas e a cobrança de mensalidades em universidades públicas. “Estou falando de tirar recursos mesmo, mas isso tem um nível de resistência enorme quando mencionado no Brasil”, afirma.

Nascido no Rio e criado em Belo Horizonte, Soares estudou e trabalhou em Chicago com o americano Gary Becker (1930-2014), vencedor do Prêmio Nobel de economia, conhecido por introduzir técnicas de pesquisa em economia em outras áreas, como o estudo do comportamento de criminosos. Mas o professor da FGV também publicou artigos em áreas como história econômica, economia política e economia institucional. Ele atribui seu interesse por temas considerados menos econômicos à influência de uma família repleta de cientistas sociais. Leia, a seguir, os principais trechos de entrevista concedida em seu gabinete, na FGV.

Valor:Em seu trabalho sobre drogas, o senhor fala em legalização gradual. Como vê esse processo ocorrendo?

Rodrigo Reis Soares: Os malefícios gerados pela proibição são muito claros. Certamente existe uma alternativa factível e razoável. Já conseguimos regular tantos outros mercados! Veja o que aconteceu com o cigarro ao longo dos últimos 40 anos como substância legal, regulada, com impostos para aumentar o custo e campanhas de conscientização sobre os malefícios. Caiu brutalmente a incidência de fumantes na população. Há muitos exemplos de áreas em que se avança paulatinamente. Deveria ser assim com as drogas. Por exemplo, a maconha seria o primeiro passo e, a partir dela, tentaríamos entender como e quanto o governo consegue regular um mercado legal de drogas. Isso está sendo tentado no Uruguai e alguns lugares dos EUA. Economistas e cientistas sociais estão esperando o desenrolar dos eventos para analisar os dados: se aumenta o consumo, particularmente entre jovens; se aumenta a criminalidade e outras variáveis. Com isso, constrói-se um arcabouço para pensar algo que hoje parece impossível: a legalização de drogas mais pesadas, que também trazem riscos mais pesados.

Valor:O que já sabemos sobre os resultados nesses países?

Soares: O número de jovens usuários de drogas na Holanda não é maior que em outros países da Europa. Nos EUA, temia-se que lojas de maconha virassem ponto de encontro de usuários e atraíssem criminalidade. Não aconteceu: viraram negócios bastante normais. Abre-se uma loja, ela traz movimento e, com isso, o crime tende a cair. Pesquisou-se, por exemplo, um certo distrito onde a maconha foi descriminalizada temporariamente. Lá, os demais crimes caíram nesse período. Em parte, porque a polícia parou de ir atrás dos garotos fumando maconha e sobrou tempo para outras coisas. Por outro lado, os preços dos imóveis, apesar da queda na criminalidade, diminuiu. Parece que as pessoas não ficaram muito confortáveis com a presença de usuários de maconha.

Valor:Persiste uma tensão entre as evidências empíricas e o arcabouço moral da sociedade?

Soares: Claro, mas grande parte disso é cultural. As pessoas se adaptam. Muita gente tem uma aversão enorme à ideia de que alguém pode estar consumindo maconha em seu bairro, em certa medida devido ao referencial moral que foi martelado por décadas. As mesmas pessoas não se incomodam com alguém na esquina tomando cerveja.

Valor:Um artigo seu aponta a importância do desemprego para explicar surtos de criminalidade. Esse tema costuma ser debatido opondo aqueles que sublinham essa dimensão e os que se concentram no papel da polícia. Qual é o peso dessas duas vertentes?

Soares: Elas interagem, e não tem por que isolar uma ou outra. Há evidências de ambos os lados. De fato, há nas raízes da criminalidade contextos sociais, alguns estruturais, alguns passageiros, numa sociedade com muita desigualdade e uma parcela enorme da população sem qualificação. Há fatores transitórios, como momentos do ciclo econômico de muito desemprego. Tudo isso contribui para um ambiente social com uma parcela maior da população contemplando a possibilidade de se envolver em uma atividade criminosa. Mas, ao fazer isso, uma pessoa leva em conta a probabilidade de ser pega, o tipo de punição que vai sofrer. Tanto a presença da polícia quanto a estratégia de policiamento podem ser muito efetivas em diminuir a criminalidade. Também não é simplesmente aumentando o número de prisioneiros que o crime cai. As evidências indicam que a probabilidade de punição é mais importante para diminuir o crime do que a punição em si ou seu rigor. No Brasil, tem muita gente na cadeia por crimes pequenos, mas os crimes grandes têm punição muito baixa. O mais importante é que no Brasil a probabilidade de ser pego é muito baixa.

Valor:Fala-se muito da prisão como escola de crime. Existe evidência sobre isso?

Soares: Existe muita evidência. Um experimento foi feito na Argentina, por exemplo. Pessoas condenadas por um mesmo crime tiveram penas diferentes: algumas foram presas e outras monitoradas com tornozeleira eletrônica. Depois do fim da pena, aqueles que passaram pela cadeia tiveram uma chance muito maior de serem presos de novo. No Brasil, onde as condições carcerárias são ainda piores, isso deve seria ainda mais evidente.

Valor:O senhor diz que o interesse por microeconomia aplicada é muito recente no Brasil, mas vem crescendo. A que atribui esse crescimento?

Soares: O Brasil é muito peculiar em termos de pesquisa em economia. Há cerca de 50 anos, talvez o que se estuda na microeconomia aplicada fosse considerado além das fronteiras da economia. Ao menos desde os anos 60 já acontecia na academia internacional o que acontece agora no Brasil: houve um enorme debate nas ciências sociais sobre o envolvimento da economia em outras áreas. Algumas pessoas falavam em “imperialismo da economia”, por exemplo.

Valor:O que falta ao debate econômico do Brasil?

Soares: Menospreza-se o papel da alocação de recursos e isso me frustra muito. Tudo tem custo de oportunidade, ou seja, colocar dinheiro em um determinado fim é deixar de colocá-lo em outro. Isso não faz parte de como o brasileiro interpreta as políticas públicas. Falta a noção de custo/benefício, o valor relativo das coisas. Seria importante que as pessoas pensassem as políticas públicas no Brasil com essa perspectiva. Há um custo implícito, por exemplo, nos empréstimos do BNDES, que poderiam ter sido usados para outra coisa. Mas só pensamos que, se o dinheiro vai para determinada firma, então mantém o emprego ali. Mas quantos recursos foram alocados? Prefiro alocar para essa firma ou para saneamento básico? Acho que a crise atual no Brasil reflete em parte essas distorções. E aí entra a economia política: quando se distorce um setor, incentivando-o com empréstimos subsidiados, é muito difícil desfazer.

Valor:Seu estudo sobre o programa Saúde da Família conclui que ele é eficiente em relação ao custo. O que esse programa tem de diferente em relação às políticas públicas brasileiras, consideradas custosas e ineficazes?

Soares: São importantes os programas onde se dá atenção básica nas comunidades porque têm baixo custo: a pessoa só precisa se deslocar. Assim se cumpre um papel muito importante na melhora das condições de saúde das comunidades mais carentes, com pouco acesso a médicos. O desenho desse programa já era baseado em experiências passadas de outros países. O ponto principal do sucesso foi o fato de não deixar o primeiro contato de um indivíduo, de uma família, com o sistema de saúde ser um hospital – algo que traz muitos problemas. Afinal, a pessoa espera que seu problema seja mais sério para procurar o sistema de saúde. Quando não se tem acesso à saúde básica, prevenção assume uma importância menor, comparada com o tratamento, o que sobrecarrega os hospitais. A eficiência vem da ideia de que se pode fazer muita coisa em saúde, embora não tudo, com um sistema de monitoramento. Por exemplo, o Saúde da Família aumentou a cobertura de acesso ao pré-natal, que era muito deficiente no país. Isso vale também para doenças crônicas, algo que vai se tornar cada vez mais relevante no país com o envelhecimento da população.

Valor:Outro artigo relaciona a desigualdade social atual ao modo de colonização de alguns países, entre eles o Brasil. Como se reverte um problema tão antigo e arraigado? Ações afirmativas, como as cotas, funcionam?

Soares: Uma coisa que teria um grande impacto, inclusive racial, mesmo não sendo racialmente focada, seria melhorar a qualidade da educação básica nas escolas públicas. Não adianta proporcionar a entrada no ensino superior para alguém que não está inteiramente preparado. A educação pública está tão aquém do que gostaríamos que o impacto de uma melhora sobre a desigualdade social no longo prazo seria muito maior do que esperar as pessoas chegarem aos 18 anos para combater o problema. No vestibular, os alunos que vêm das escolas privadas, filhos da classe média alta, têm condições vastamente superiores aos alunos que vêm das escolas públicas. São problemas que se acumulam ao longo de 18 anos, da primeira infância até o vestibular. Acesso à cultura, à educação, a professores qualificados. É preciso tirar recurso da educação terciária e passar para a educação pública primária e secundária. Isso é fundamental. Sim, estou falando de tirar recursos mesmo, mas isso tem um nível de resistência enorme quando mencionado no Brasil.

Valor:O ensino superior também reclama de falta de verbas…

Soares: Tem que começar a cobrar mensalidade: todas as universidades públicas têm que ser pagas, porque a grande maioria das pessoas que estudam nelas foram a colégios privados a vida inteira. A gratuidade tem que passar a ser uma exceção: concordo que se uma pessoa não tem condições de pagar, a universidade tem que ser gratuita. Mas a distorção da alocação de recursos na educação pública no Brasil não tem comparação em padrões internacionais. Tem que entrar na cabeça das pessoas que a universidade pública no Brasil é uma redistribuição para as classes privilegiadas. Pode-se pegar esse recurso e voltar para a educação básica. As crianças que entram na escola pública agora, daqui a 15 anos vão entrar na competição do vestibular em condições mais iguais.

Valor:O senhor escreveu também sobre a influência dos ciclos econômicos da história brasileira (cana, café, ouro) sobre as instituições atuais. Na sua avaliação, o ciclo do ouro teve um impacto menos deletério. Por quê?

Soares: Estudos de economia institucional têm ganhado muita força nas últimas décadas, tentando entender como os condicionantes históricos e políticos afetam as políticas públicas. Política econômica, decisões de política educacional, são frutos de um contexto político e interagem com ele. Existe uma tradição no Brasil de que o debate econômico é uma questão de macroeconomia de curto prazo, mas isso é uma parte relativamente pequena de economia. O ciclo do café, ao contrário dos outros, já era um pouco menos rentista. Existia uma certa necessidade de investimento, uma parte de empreendimento no ciclo do café. Os outros tinham um caráter muito mais rentista, no sentido de que o ouro está ali e não exige muito investimento, uma visão de longo prazo. A cana obviamente exige algum tipo de ocupação e planejamento, mas era algo muito incipiente, usando escravidão muito intensivamente, com uma sociedade absurdamente estratificada. Daí as diferenças, que são bem visíveis.

Valor:Hoje, como está a interação da economia com as demais ciências sociais?

Soares: Varia muito. Na minha área de experiência, como em criminologia, é muito comum que os cientistas sociais sejam abertos aos economistas, em grande parte por causa da estatística trazida pela microeconomia aplicada. A economia amadureceu muito como disciplina onde se aplica estatística de forma muito rigorosa. Tendo hipóteses claras e um problema bem definido, pode-se trabalhar em inúmeras áreas. Determinadas áreas têm uma demanda grande de entender quais programas funcionam e quais não: na criminologia, essa tradição é forte, assim como na demografia. Em outras, existem grupos que apreciam muito esse contato e grupos que não apreciam tanto. Certamente o papel da economia nessas outras áreas não é consensual. E os economistas que vão trabalhar nessas áreas trabalham com as pessoas que já se dedicam a elas, não ignoram simplesmente o que já se fez naquele campo.

Valor:E quanto ao método, com todas as hipóteses econômicas sobre o comportamento dos agentes? Não causa estranhamento em pesquisadores de outras disciplinas?

Soares: A economia hoje já entende esse comportamento como incorporando várias outras dimensões. Quando falamos de comportamento racional, isso não quer dizer que a escolha seja simplesmente monetarista. Pode envolver valores e cultura. A teoria de escolha racional hoje incorpora isso em várias dimensões. Também a economia comportamental ganhou muita atenção nos últimos anos e hoje acho que é a visão dominante em economia: há uma mistura de circunstâncias, em que às vezes o arcabouço racionalista é o mais adequado, às vezes não. Em economia, há uma disciplina teórica muito bem estabelecida, seja na perspectiva racional, seja na comportamental, e está se tornando comum combinar ambas. Em outras áreas, a discussão metodológica e epistemológica é mais solta, por natureza.

Valor Econômico – 24/03/2016

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Publicada lei que aumenta percentual de biodiesel no óleo diesel

BRASÍLIA  –  A lei que define os percentuais obrigatórios de biodiesel misturado ao óleo diesel vendido no país foi publicada nesta quinta-feira no Diário Oficial da União. O texto foi assinado ontem sem sanções pela presidente Dilma Rousseff.

A Lei 13.263 define uma escala para mistura do biodiesel, que passará dos atuais 7% para 8% até 2017, e chegando a 10% em 2019, para o combustível vendido ao consumidor final.

A lei também prevê a realização de testes nos próximos 36 meses para analisar a viabilidade de uma mistura de até 15%. Se não forem identificados problemas, o percentual será autorizado e, segundo o governo, poderá levar à redução dos preços do combustível.

A lei diz ainda que a adição voluntária de biodiesel ao óleo diesel em quantidade superior ao percentual obrigatório será facultativa, assim como o uso voluntário da mistura no transporte público, ferroviário, na navegação, em equipamentos e veículos destinados à extração mineral e à geração de energia elétrica, em tratores e máquinas agrícolas.

(Maíra Magro | Valor)

Redação On março - 24 - 2016
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